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Índice de verbetes



Allan Kardec



Allan Kardec, ou Hippolyte-Léon Denizard Rivail (Lyon, 3 de outubro de 1804 - Paris, 31 de março de 1869), conhecido como o codificador do Espiritismo, ou seja, a Doutrina Espírita, em razão de ter sido ele quem copilou e publicou os conceitos básicos da nova doutrina, pelo que às vezes se diz Doutrina Kardecista. Anteriormente ao seu trabalho espírita, foi um influente pedagogo, escritor de obras pedagógicas e tradutor francês de livros e artigos de diversos idiomas. A partir de quando passou a se dedicar à doutrina dos Espíritos, adotou o pseudônimo Allan Kardec. Teve como esposa Amélie-Gabrielle Boudet, pedagoga e artista plástica, além de devotada colaboradora em seu trabalho espírita.


Allan Kardec, o codificador do Espiritismo



Vida pessoal e carreira profissional

Rivail nasceu numa tradicional família de ascendentes formados em Magistério e Direito. Seus pais, Jean-Baptiste Antoine Rivail e Jeanne Louise Duhamel, moravam no interior da França, na comuna (equivalente a município no Brasil) de Saint-Denis-lès-Bourg, ao lado da comuna Bourg-en-Bresse, capital daquele departamento (equivalente a Estado) de Ain. A família de seus avós maternos, Bnôit Marie Duhamel e Charlotte Bochard, era de classe nobre da região. O patriarca Duhamel, inclusive, havia sido préfet (espécie de governador) de Ain. Quando Rivail nasceu, porém, a avó Charlotte já era viúva. Os avós paternos de Kardec também já eram falecidos.

Bourg-en-Bresse era um tradicional recanto de férias e passeios da nobreza francesa. Pacata e campestre, seria um excelente berço para a sua infância. Contudo, seu nascimento se daria em Lyon, em função de seus pais buscarem um melhor acompanhamento para o parto — uma vez que Jeanne-Louise já havia perdido os dois filhos anteriores. Para tanto, ela foi instalada numa típica casa de águas minerais, localizada na Rua Sala N° 74, próxima da travessa com a Rue de la Charité, ou Rua da Caridade (palavra familiar à biografia de Kardec, não?). Após seu nascimento, seus pais voltaram para a morada em Saint-Denis-lès-Bourg. O pequeno Rivail voltaria a Lyon no seu primeiro aniversário para a cerimônia de batismo, na igreja de Saint-Denis de la Croix Rousse, conforme sua certidão de batizado.


Placa em homenagem a Allan Kardec, filho natural de Lyon, França


Enquanto ainda criança, por volta dos três anos, Rivail assistiu à partida de seu pai rumo a uma campanha militar enviada por Napoleão Bonaparte à penísula ibérica, sem de lá voltar. Com a presumida morte do pai, ele e sua mãe foram morar na casa dos avós em Bourg-en-Bresse, onde o garoto vai passar a infância e começo da juventude, até sua transferência para Yverdon-les-Bains na Suíça, para fazer seus estudos na conceituada escola de Pestalozzi, onde, precocemente propenso à Filosofia e às Ciências gerais, notabilizou-se como aluno e como professor particular de aulas de reforço.

Foi educado familiarmente dentro do catolicismo, como era comum na França, porém, conheceu bem as ideias protestantes, durante os estudos, por ocasião de sua estadia na Suíça — então um país predominantemente de tradições protestantes. Essa diversidade de conceitos religiosos e sua inclinação para o conhecimento científico contribuíram para que mantivesse uma postura moderada em relação às questões de fé, longe dos extremismos tão comuns em seu tempo.

"Nascido sob a religião católica, mas educado num país protestante, os atos de intolerância que por isso teve de suportar, no tocante a essa circunstância, cedo o levaram a conceber a ideia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou em silêncio durante longos anos com o intuito de alcançar a unificação das crenças. Faltava-lhe, porém, o elemento indispensável à solução desse grande problema."
Revista Espírita, Allan Kardec - "Biografia do Sr. Allan Kardec"


Absorveu bem o método educacional revolucionário do Prof. Pestalozzi, que consiste na formação integral do cidadão, pelos princípios do conhecimento e da moral — método esse que se tornaria a base das reformas pedagógicas modernas, influenciando a modernidade das escolas europeias, notadamente na França e Alemanha. Em 1822, tornando-se bacharel em Ciências e Letras, aos dezoitos anos, e retornando ao seu país para atuar na área pedagógica, Rivail iria se tornar um dos mais eminentes propagadores do método de seu mestre.


Prof. Rivail (Allan Kardec)


De volta à França, estabeleceu-se com sua mãe em Paris, fez carreira como professor de diversas disciplinas. Seguindo o método pestalozziano, fundou o Instituto Técnico Rivail, na Rua dos Sèvres, em sociedade com um tio materno (François Duhamel), revolucionando os estudos com um método educacional voltado para a aplicação prática das atividades profissionais. Esse Instituto foi fechado a partir de quando o seu tio e sócio, com dificuldades financeiras, propôs a venda do estabelecimento, para então resgatar sua parte no investimento. Fontes dão conta de que no decorrer das negociações Rivail seria lesado na parte que lhe cabia por direito.

Poliglota, trabalhou também como tradutor de livros e artigos. Ganhou destaque especialmente por suas publicações pedagógicas, pelas quais propunha modernos sistemas de aprendizado — o que lhe conferiu vários prêmios e a entrada em importantes sociedades acadêmicas europeias.

Casou-se em 6 de fevereiro de 1832 com Amélie-Gabrielle Boudet, também pedagoga, com quem o prof. Rivail mobilizou campanhas para uma maior democratização da escola. Juntos, abriram classes gratuitas para o ensino de várias matérias escolares.


Allan Kardec e sua esposa Amélie-Gabrielle Boudet


Certificados e prêmios:

  • Diploma de fundador da Sociedade de Previdência dos Diretores de Colégios e Internatos de Paris.
  • Diploma da Sociedade para a Instrução Elementar
  • Diploma do Instituto de Línguas
  • Diploma da Sociedade de Educação Nacional, constituída pelos diretores de Colégios e de Internatos da França
  • Diploma da Sociedade Gramatical de Paris
  • Diploma da Sociedade de Emulação e de Agricultura do Departamento do Ain
  • Diploma do Instituto Histórico
  • Diploma da Sociedade Francesa de Estatística Universal
  • Diploma da Sociedade de Incentivo à Indústria Nacional
  • Medalha de ouro, 1º prêmio, conferida pela Sociedade Real de Arrás, no concurso realizado em 1831, sobre educação e ensino.

Publiçação pedagógica do Prof. Rivail (Allan Kardec)


Obras didáticas de sua autoria:

  • Curso prático e teórico de Aritmética - 2 tomos (1828)
  • Plano Proposto Para a Melhoria da Instrução Pública (1828)
  • Gramática Francesa Clássica (1831)
  • Qual o sistema de estudo mais consentâneo com as necessidades da época? (1831)
  • Manual dos exames para os títulos de capacidade: soluções racionais de questões e problemas de Aritmética e de Geometria (1846)
  • Catecismo gramatical da Língua Francesa (1848)
  • Programa dos Cursos ordinários de Química, Física, Astronomia, Fisiologia (1849)
  • Ditados normais dos exames da Municipalidade e da Sorbona (1849)
  • Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849)

Obra didática do Prof. Rivail (Allan Kardec)


Iniciação espírita

O prof. Rivail tinha 50 anos de idade quando tomou conhecimento da série de manifestações espirituais que resultou no fenômeno das mesas girantes e do Espiritualismo Moderno. Conforme ele próprio descreve no livro Obras Póstumas (2ª parte: "A minha primeira iniciação no Espiritismo"), em 1854, um amigo, o Sr. Fortier, lhe introduziu o assunto, porém Rivail não ficou entusiasmado. Supôs que tudo se tratasse de algum efeito de Magnetismo Animal — que ele estudava desde longa data.

Um ano seguinte, no entanto, diante da febre crescente das manifestações e da variedade dos fenômenos, somadas à insistência de outro amigo, o Sr. Carlotti, Rivail vai assistir a uma sessão experimental, pela qual observa a excentricidade daqueles efeitos — remetendo-o à busca de uma explicação científica para tais fenômenos. Desde então, ingressou regularmente em reuniões daquelas práticas neoespiritualistas com o propósito de estudar as manifestações, verificando então a existência de seres espirituais (Espíritos), como a causa e agente primordial daqueles extraordinários fenômenos.


Fotografia de Allan Kardec


Nessas reuniões, ele submetia aos Espíritos, através dos médiuns que se emprestavam à sessão, questões previamente formuladas sobre conhecimentos gerais, a natureza espiritual, o mecanismo daquele intercâmbio (Mediunidade) e as consequências dessas revelações, posto que aquelas revelações implicavam em novos desdobramentos de ordem científica, filosófica, religiosa e moral.

Já tendo uma boa compreensão da existência dos Espíritos e do mundo espiritual, do processo de intercâmbio natural entre o plano invisível e a nossa dimensão física, bem como das múltiplas existências corporais (processo de reencarnação), ele então recebeu a revelação da missão para qual ele havia se inscrito em seu planejamento reencarnatório: codificar os ensinamentos daqueles Espíritos amigos que o guiavam e tornar pública a nova doutrina — o Espiritismo.

Entre os tantos Espíritos que o auxiliariam, figuravam-se Sócrates, Santo Agostinho, São Luís, Fénelon, Erasto, Emmanuel, Lacordaire e, em particular, aquele que se denominou Espírito Verdade, e que mais tarde iria se revelar ser seu guia espiritual.

Abraçando a missão, o professor passou a adotar o pseudônimo Allan Kardec, em menção ao seu mesmo nome em uma de suas encarnações, quando havia sido um sacerdote druida. Com essa providência, ele visava distinguir sua missão espírita do trabalho profissional, realizado como pedagogo.

Ver Revelação Espírita.


Fundamentos do Espiritismo

Após dois anos de intensas pesquisas e consultas espirituais, colhendo e comparando as revelações e ensinamentos, Allan Kardec reuniu os primeiros fundamentos da nova doutrina, que ele intitulou Espiritismo — neologismo de sua autoria, assim como os seus adjetivos: espírita e espiritista. A compilação desses fundamentos e a apresentação da nova doutrina foram lançadas ao público em 18 de abril de 1857 na sua obra primária: O Livro dos Espíritos.

Ver Conceitos básicos do Espiritismo.

Depois de esse lançamento alcançar grande repercussão, na França e no exterior, Kardec prosseguiu com suas pesquisas, ampliando contatos com pesquisadores, médiuns, divulgadores e simpatizantes da doutrina, levando-o ao bem-sucedido projeto de uma publicação mensal: a Revista Espírita, de subtítulo Jornal de Estudos Psicológicos, cuja primeira edição foi lançada em 1 de janeiro de 1858.

Em 1 de abril daquele mesmo ano, ele fundou e presidiu a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas — o primeiro centro espírita oficialmente constituído no mundo.


Assinatura de Allan Kardec



Codificação Espírita

Além de cuidar mensalmente da montagem da Revista Espírita — o que se estendeu até sua morte, em 1869) — Kardec continuou trabalhando para publicar novas obras, compondo assim o que chamamos de obras básicas da codificação espírita. Em 1859, ele publica um opúsculo contendo o resumo da doutrina: O Que é o Espiritismo?. No ano seguinte, lançou a segunda edição de O Livro dos Espíritos, que, por sua expressiva ampliação e reestruturação dos itens, caracteriza-a quase que como uma nova obra, solidificando os princípios doutrinários do ensino dos Espíritos.

Em 1861 veio O Livro dos Médiuns, ou Guia dos Médiuns e Evocadores. Como o próprio título expressa, é um tratado sobre a faculdade mediúnica, o papel dos médiuns, das sessões espíritas e as consequências da mediunidade para todos os envolvidos. Kardec já havia publicado um guia prático para a mediunidade, em 1858, sob o título "Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas". Como a tiragem foi curta e esgotada quase que imediatamente, o codificador recebeu muitos apelos para uma reedição daquele folhetim. Ao invés disso, porém, preferiu uma nova publicação, na qual aprofundasse o tema, acompanhando as novas observações colhidas em suas pesquisas.

Em 15 de abril de 1864, Kardec publica o livro "Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo", que na terceira edição ele iria reintitular para O Evangelho segundo o Espiritismo. Nesta obra, o codificador faz uma releitura dos ensinamentos morais de Jesus Cristo, sob a ótica do Espiritismo, complementada por instruções de vários Espíritos.

A obra seguinte foi O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo, publicada em 1 de agosto de 1865. Nela, o leitor encontra as explanações acerca do destino da alma, após a desencarnação, bem como o conceito espírita para as tradicionais teorias do céu, do inferno, do purgatório, das penas eternas e das implicações dos atos do encarnado para a vida espiritual. Traz, além disso, uma série de mensagens de Espíritos e seus exemplos acerca da condição da existência na erraticidade.

A Gênese veio em 6 de janeiro de 1868, trazendo o subtítulo Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. O seu conteúdo básico é formado pelos conceitos espíritas no tocante ao lado científico da revelação, da formação do mundo, da vida orgânica e dos elementos gerais do Universo e seus efeitos, pelos quais, Kardec analisa também as faculdades de Jesus na realização do que se convencionou chamar milagres. Além disso, o livro anuncia a grande transformação pela qual a Terra passa e sua repercussão para seus habitantes — encarnados e desencarnados.

Desde quando assumiu sua missão espírita, Allan Kardec dedicou-se quase que interinamente a essa causa. Sem filhos, apoiado pela esposa, despendeu seu tempo essencialmente compondo os textos para seus livros e para a Revista Espírita, administrando a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, além de empreender viagens em visita a entidades confrades para o desenvolvimento do Espiritismo.

Sua dedicação a esta missão era tamanha que chegou até ser advertido várias vezes pela espiritualidade, por exemplo, em uma comunicação recebida em 23 de abril de 1866, para que não descuidasse do seu descanso necessário, ainda que os trabalhos doutrinários se fizessem urgentes, inclusive porque seus guias também já lhe havia predito que o complemento da tarefa doutrinária a que se comprometera necessariamente ficaria para um nova reencarnação.

Em seu apostolado à frente da nova doutrina, Kardec sempre cumpriu as exigências legais do governo francês, isentando-se de polêmicas políticas e evitando confronto com autoridades religiosas. Muitas vezes atacado pelos antipáticos à causa espírita, especialmente eclesiásticos católicos, limitou-se a refutar as teses contrárias ao Espiritismo, fazendo uso da publicação mensal da Revista Espírita, e ignorando as acusações pessoias.


Desencarnação

kardec desencarnou em Paris, a 31 de março de 1869, aos 64 anos de idade, vítima de uma ruptura de um aneurisma, justamente em meio aos preparativos para a mudança prevista para o dia seguinte, do seu apartamento na rua Sainte-Anne, n° 59, para a nova morada, na Vila Ségur, n° 39, onde adquira um terreno, para o qual pretendia construir um — tão almejado — complexo espírita (a sede da Sociedade Espírita e da Revista Espírita, uma biblioteca, um museu, um asilo e outros departamentos de atendimento social aos mais necessitados.

O velório de seu corpo foi cortejado por grande multidão, seguindo para o cemitério de Montmartre. Aos pés do túmulo, no ato do sepultamento, seu amigo e renomado astrônomo Camille Flammarion lhe devotou um honorável discurso.

"Voltaste a esse mundo donde viemos e colhes o fruto de teus estudos terrestres. Aos nossos pés dorme o teu envoltório, extinguiu-se o teu cérebro, fecharam-se-te os olhos para não mais se abrirem, não mais ouvida será a tua palavra… Sabemos que todos havemos de mergulhar nesse mesmo último sono, de volver a essa mesma inércia, a esse mesmo pó. Mas, não é nesse envoltório que pomos a nossa glória e a nossa esperança. Tomba o corpo, a alma permanece e retorna ao Espaço. Encontrar-nos-emos num mundo melhor e no céu imenso onde usaremos das nossas mais preciosas faculdades, onde continuaremos os estudos para cujo desenvolvimento a Terra é teatro por demais acanhado (…) Até à vista, meu caro Allan Kardec, até à vista!"
Camille Flammarion - Obras Póstumas: "Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec"



Túmulo de Allan KardecTúmulo de Allan Kardec no Cemitério do Père-Lachaise


No ano seguinte, a 31 de março de 1870, seus restos mortais foram transferidos para o cemitério Pére-Lachaise, onde foi erguido um dólmen no estilo druídico e se lê uma de suas máximas: "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar: tal é a lei".

A título de um balanço pessoal de sua obra, em um manuscrito intitulado "Fora da Caridade não há Salvação", encontrado por sua viúva, após o seu retorno à pátria espiritual, ele exprime:

"Estes princípios, para mim, não existem apenas em teoria, pois que os ponho em prática; faço tanto bem quanto o permite minha posição; presto serviços quando posso; os pobres nunca foram repelidos de minha porta ou tratados com dureza; foram recebidos sempre, a qualquer hora, com a mesma benevolência; jamais me queixei dos passos que hei dado para fazer um benefício; pais de família têm saído da prisão graças aos meus esforços.
Certamente não me cabe inventariar o bem que já pude fazer; mas, do momento em que parecem esquecer tudo, é-me lícito, creio, trazer à lembrança que a minha consciência me diz que nunca fiz mal a ninguém, que hei praticado todo o bem que esteve ao meu alcance, e isto, repito-o, sem me preocupar com a opinião de quem quer que seja.
A esse respeito trago tranquila a consciência; e a ingratidão com que me hajam pago em mais de uma ocasião não constituirá motivo para que eu deixe de praticar o bem.
Eis como entendo a caridade cristã. Compreendo uma religião que nos prescreve que retribuamos o mal com o bem e, com mais forte razão, que retribuamos o bem com o bem. Nunca, entretanto, compreenderia a que nos prescrevesse que paguemos o mal com o mal."
Allan Kardec


Pós-morte

Pouco antes de desencarnar, Kardec havia elaborado o seu testamento, no qual constava a designação dos seus bens para a Sociedade Anônima — uma fundação especialmente criada para a continuidade e a administração do trabalho espírita, incluindo, a edição da Revista Espírita e da Livraria Espírita. A sua devotada esposa, herdeira direta, assumiu a direção da fundação, mas, com o avançar da sua idade, as funções práticas foram delegadas a terceiros, principalmente ao seu mandatário Pierre-Gaëtan Leymarie — já desde há muito um colaborador de Kardec na produção da Revista Espírita.

Fui justamente Leymarie quem cuidou para que mais uma obra de Allan Kardec fosse publicada, em 1890, onze anos após sua desencarnação: Obras Póstumas, que reune artigos diversos sobre a doutrina, além anotações de seu diário pessoal, pelo qual narra pormenorizadamente desde a sua iniciação aos estudos dos daqueles fenômenos extraordinários até os seus planos para o desenvolvimento do Espiritismo.

A tão aguardada primeira comunicação do Espírito Allan Kardec se deu quase três meses depois de sua passagem, exatamente em 20 de junho de 1869, publicada na Revista Espírita daquele mês sob o título "Marcha do Progresso". Nela, nada relacionado à sua condição particular, mas um teor essencialmente doutrinário, a comprovação pessoal da doutrina da evolução e da pluralidade dos mundos habitados, além de uma exortação aos confrades: "Sejam pioneiros perseverantes e infatigáveis!... Se lhes chamarem de loucos como o fizeram a Salomão de Caus, se lhes repelirem como Fulton, marcham sempre, porque o tempo, esse juiz supremo, saberá tirar das trevas os que alimentam o farol que deve, um dia, iluminar a Humanidade inteira.".

No mundo dos Espíritos, Kardec isentou-se de dar comandos aos seus continuadores, deixando a eles o julgamento de suas intenções, limitando-se a "apreciar os resultados", como ele diz na comunicação obtida em 14 de setembro daquele mesmo ano, publicada na Revista Espírita como uma dissertação: "O Espiritismo e a literatura contemporânea". Esse "distanciamento" foi compreendido pelos seus confrades como uma circunstância natural em razão do prenúncio feito pelo seu guia espiritual (o Espírito Verdade) de que ele deveria retornar à Terra muito em breve, tempo esse que o próprio Kardec calculou reencarnar entre o final daquele século XIX até o início do século XX (o que até hoje tem sido objeto de muita especulação sobre quem ele teria sido nessa nova reencarnação).

Após a desencarnação de Madame Kardec, em janeiro de 1883, o patrimônio e a continuação dos projetos espíritas idealizados pelo Codificador em seu testamento se perderiam em meio a várias disputas no seu entorno. Através da brochura intitulada Beaucoup de Lumière (Muita Luz), Berthe Fropo — uma amiga íntima do casal Kardec — denunciou desvios doutrinários e administrativos de Pierre-Gaëtan Leymarie, o primeiro a requerer a herança espírita. De fato, ficou constatado que, dentre tantos desvios, o novo diretor da Revista Espírita submeteria aquele famoso periódico kardecista às mais variadas concepções e ideologias espiritualistas e místicas, por exemplo, o Roustainguismo e o Teosofismo. Ainda segundo a Madame Fropo, o Codificador, em Espírito, cuidou de orientar a viúva Kardec e seus amigos Gabriel Delanne e a própria Berthe Fropo para a fundação de uma nova instituição — a União Espírita Francesa — e um novo período espírita, intitulado Le Spiritisme (O Espiritismo), a fim de representar os verdadeiros ideais kardecistas.


Legado

O legado de Kardec à humanidade é inestimável e crescente. À medida que o Espiritismo se espraia pelo mundo e os conceitos espíritas são corroborados pelas evidências, sua memorável obra se robustece, embora ainda muito aquém de seu merecimento.

Nas palavras de Leymarie, "Sem ser tachado de presunçoso, quem dentre nós poderia lisonjear-se de possuir o espírito de método e organização de que se mostram iluminados todos os trabalhos do mestre? Só a sua pujante inteligência podia concentrar tantos materiais diversos, dividi-los e transformá-los, para espalhá-los em seguida, como orvalho benfazejo, sobre as almas desejosas de conhecer e de amar...", ilustramos a grandiosidade de seu papel à frente do Espiritismo e, por conseguinte, da História da Humanidade, que, cedo ou tarde, há reconhecê-lo um de seus maiores patronos, sob a égide do Espírito da Verdade e do Cristo Jesus.


Allan Kardec, o codificador espírita



Citações célebres de Allan Kardec

"Os homens semeiam na terra o que colherão na vida espiritual: os frutos da sua coragem ou da sua fraqueza."
"Só é inabalável a fé que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade."
"Nascer, Morrer, Renascer ainda e Progredir sem cessar, tal é a Lei."
"Toda a paixão que aproxima o homem da natureza animal, o distancia da natureza espiritual."
"Fora da Caridade, não há salvação."
Allan Kardec


Kardec descrito por terceiros

O amigo e astrônomo Camille Flammarion denominou o mestre espírita como "O bom-senso encarnado" (em discurso durante o sepultamento do corpo de Kardec).

A inglesa Anna Blackwell, tradutora pioneira da obra kardequiana para o inglês, assim o descreveu:

"Pessoalmente Allan Kardec era de estatura média. Compleição forte, com uma cabeça grande, redonda, maciça, feições bem marcadas, olhos pardos, claros, mais se assemelhando a um alemão do que a um francês. Enérgico e perseverante, mas de temperamento calmo, cauteloso e não imaginoso até a frieza, incrédulo por natureza e por educação, pensador seguro e lógico, e eminentemente prático no pensamento e na ação. Era igualmente emancipado do misticismo e do entusiasmo... Grave, lento no falar, modesto nas maneiras, embora não lhe faltasse certa calma dignidade, resultante da seriedade e da segurança mental, que eram traços distintos de seu caráter. Nem provocava nem evitava a discussão, mas nunca fazia voluntàriamente observações sobre o assunto a que havia devotado toda a sua vida, recebia com afabilidade os inúmeros visitantes de toda a parte do mundo que vinham conversar com ele a respeito dos pontos de vista nos quais o reconheciam um expoente, respondendo às perguntas e objeções, explanando as dificuldades, e dando informações a todos os investigadores sérios, com os quais falava com liberdade e animação, de rosto ocasionalmente iluminado por um sorriso genial e agradável, conquanto tal fosse a sua habitual seriedade de conduta que nunca se lhe ouvia uma gargalhada."
Anna Blackwell, A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - Cap. 21

O pesquisador espírita Canuto Abreu também nos transcreve os traços físicos do Codificador em meio à narração da reunião fraterna, ocorrida na casal Kardec em 18 de abril de 1857, para comemorar com os amigos mais próximos o lançamento de O Livro dos Espíritos:

"De estatura meã, apenas 165 centímetros, e constituição delicada, embora saudável e resistente, o Professor Rivail tinha o rosto sempre pálido, chupado, de zigomas salientes e pele sardenta, castigada de rugas e verrugas. Fronte vertical comprida e larga, arredondada ao alto, erguida sobre arcadas orbitárias proeminentes, com sobrancelhas abundantes e castanhas. Cabelos lisos e grisalhos, ralos por toda a parte, falhos atrás (onde alguns fios mal encobriam a larga coroa calva da madureza), repartidos, na frente, da esquerda para a direita, sem topete, confundidos, nos temporais, com as barbas grisalhas e aparadas que lhe desciam até o lóbulo das orelhas e cobriam, na nuca, o colarinho duro, de pontas coladas ao queixo. Olhos pequenos e afundados, com olheiras e pápulas. Nariz grande, ligeiramente acavaletado perto dos olhos, com largas narinas, entre rictos arqueados e austeros. Bigodes rarefeitos, aparados à borda do lábio, quase todo branco. Para triangular sob o beiço, disfarçando uma pinta cabeluda. Semblante severo quando estudava ou magnetizava, mas cheio de vivacidade amena e sedutora quando ensinava ou palestrava.
O que nele mais impressionava era o olhar estranho e misterioso, cativante pela brandura das pupilas pardas, autoritário pela penetração a fundo na alma do interlocutor. Pousava sobre o ouvinte como suave farol e não se desviava abstrato para o vago senão quando meditava, a sós. E o que mais personalidade lhe dava era a voz, clara e firme, de tonalidade agradável e oracional, que podia escalar agradavelmente desde o murmúrio acariciante até as explosões da eloquência parlamentar.
Sua gesticulação era sóbria, educada. Quando distraído, a ler ou a pensar, cofiava os "favoris". Quando ouvia uma pessoa, enfiava o polegar direito no espaço entre dois botões do colete, a fim de não aparentar impaciência e, ao contrário, convencer de sua tolerância e atenção. Conversando com discípulos ou amigos íntimos, apunha algumas vezes a destra ao ombro do ouvinte, num gesto de familiaridade. Mantinha rigorosa etiqueta social diante das damas. "
Canuto Abreu, O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária - Cap. 6


Curiosidades

De acordo com o médium Divaldo Franco, valendo-se de uma psicografia assinada pelo Espírito Léon Denis, durante o 4° Congresso Mundial de Espiritismo (Paris, 2004), uma das reencarnações anteriores de Allan Kardec havia sido Jan Hus (1369-1415) filósofo e reformador religioso do Reino da Boémia (atual República Checa), precursor da Reforma Protestante, considerado herege e queimado vivo pela Inquisição Católica.

No filme documentário O Espiritismo - De Kardec aos dias de hoje, produzido pela FEB em 1995, Allan Kardec é interpretado pelo ator Ednei Giovenazzi.

A trajetória biográfica do Codificador é parte do conteúdo básico do videodocumentário Roteiro Histórico Espírita em Paris, produzido pelo Portal Luz Espírita em 2017.


Referências

  • O que é o Espiritismo?, Allan Kardec - especialmente: "Biografia de Allan Kardec, por Henri Sausse" (livro online)
  • Obras Póstumas, Allan Kardec - especialmente: "Biograafia de Allan Kardec"; "Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec, por Camille Flammarion"; 2ª Parte: "Extratos, in extenso, do livro das previsões concernentes ao Espiritismo" (livro online).
  • Revista Espírita, Allan Kardec - coleção de 1857 a 1869.
  • O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária, Canuto Abreu.
  • A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle (livro online)
  • Kardec, Marcel Souto Maior.
  • Revolução Espírita, Paulo Henrique de Figueiredo.
  • Em Nome de Kardec, Adriano Calsone.
  • O Espiritismo - De Kardec aos dias de hoje, Filme-documentário produzido pela FEB, 1995, (ver resenha).
  • Autores Espíritas Clássicos - site oficial.
  • Roteiro Histórico Espírita em Paris, Luz Espírita, 2017 (assistir ao videodocumentário)




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