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Índice de verbetes



Auto de Fé de Barcelona



O Auto de Fé de Barcelona foi um importante episódio para a História do Espiritismo, apesar de se tratar de uma ofensiva da Inquisição Católica contra a Doutrina Espírita. Refere-se à execução de um processo movido pelo bispo de Barcelona, ordenando a queima em praça pública de uma remessa de livros espíritas que Allan Kardec havia enviado para uma livraria na Espanha. A execução se deu em 9 de outubro de 1861. A despeito do prejuízo material, esse ato acabou por despertar naquela região maior interesse pelo Espiritismo, além de engrossar a crescente revolta popular contra as arbitrariedades da Igreja Católica.



O Auto de Fé

"Auto de Fé" foi o nome dado a uma cerimônia em que eram proclamadas e executadas as sentenças do Tribunal de Inquisição da Igreja Católica. Essa corte religiosa, também conhecida de Tribunal do Santo Ofício, foi instituída no começo do século XIII, com o objetivo de caçar e julgar os réus acusados de heresia (crime contra a doutrina católica).

Nas nações que proclamavam o catolicismo como a religião oficial do Estado, autoridades eclesiásticas detinham o poder de abrir processos, julgar (muitas vezes sumariamente) e expedir sentenças (a serem executadas pelo Estado) contra os condenados.


O Auto em Barcelona

De Paris, França, Allan Kardec havia enviado cerca de 300 obras espíritas, de sua autoria e de outros escritores, para serem comercializadas pela livraria de Maurice Lachâtre — escritor, editor e intelectual francês exilado em Barcelona, Espanha.

A remessa continha exemplares das obras seguintes:

  • Revista Espirita, dirigida por Allan Kardec;
  • A Revista Espiritualista, dirigida por Piérard;
  • O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;
  • O Livro dos Médiuns, por Allan Kardec;
  • O que é o Espiritismo?, por Allan Kardec;
  • Fragmento de sonata, atribuído ao Espírito de Mozart;
  • Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo doutor Grand;
  • A História de Joana d'Arc, atribuído a Joana d'Arc pela médium Ermance Dufaux;
  • A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo barão de Guldenstubbé.

Quando passava pela alfândega espanhola, a remessa foi confiscada pela Igreja local, sob a ordem do bispo Antonio Palau Termes (1857-1862), a pretexto da autoridade que lhe era concedida pela Inquisição. Argumentando que aquelas obras eram contrárias à fé católica, o bispo de Barcelona então sentenciou que fossem queimados, sem qualquer tipo de indenização aos seus proprietários. A execução se efetivou na esplanada central daquela cidade, às 10h30.


Allan Kardec tomou conhecimento do Auto pessoalmente. Seu informante descreveu:

"Assistiram ao Auto de Fé: um sacerdote com os hábitos sacerdotais, empunhando a cruz numa mão e uma tocha na outra; um escrivão encarregado de redigir a ata do Auto de Fé; um ajudante do escrivão; um empregado superior da administração das alfândegas; três serventes da alfândega, encarregados de alimentar o fogo; um agente da alfândega representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo.
Uma multidão incalculável enchia as calçadas e cobria a imensa esplanada onde se erguia a fogueira. Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras espíritas, o sacerdote e seus ajudantes se retiraram, cobertos pelas vaias e maldições de numerosos assistentes, que gritavam: Abaixo a Inquisição! Em seguida, várias pessoas se aproximaram da fogueira e recolheram as suas cinzas."
Revista Espírita, Novembro de 1861, Allan Kardec - "Resquícios da Idade Média"

Repercussão

Os principais jornais internacionais noticiaram o Auto com um tom majoritariamente de reprovação à sentença, que atiçou ainda mais a opinião pública contra a intolerância ideológica da Igreja Católica e o autoritarismo das autoridades que se autoimputaram competentes para o Auto. Além disso, o fato acabou propagando ainda mais o Espiritismo e despertando o interesse popular pelas obras espíritas. O jornal Las Novedades de Madrid notiticou: ""Eis o repugnante espetáculo, autorizado pelos homens da união liberal, em pleno século dezenove: uma fogueira em La Coruña, outra em Barcelona, e ainda muitas outras, que não faltarão, em outros lugares. É o que deve acontecer, pois é uma consequência imediata do caráter geral que domina o atual estado de coisas e que em tudo se reflete. Reação no interior, relativa aos projetos de lei apresentados; reação no exterior, apoiando todos os governos reacionários da Itália, antes e depois de sua queda, combatendo as ideias liberais em todas as ocasiões, buscando por todos os lados o apoio da reação, obtido ao preço das mais desastradas concessões.""

Tão logo soube da apreensão dos livros, mas antes da execução da sentença, Kardec consulta seu guia espiritual — Espírito Verdade — se seria favorável reclamar a restituição das obras e se deveria publicar os fatos relacionados na Revista Espírita. Eis a resposta:

"Por direito, pode reclamá-las e conseguiria que te fossem restituídas, se te dirigisse ao Ministro de Estrangeiros da França. Mas, ao meu parecer, resultará desse auto-de-fé maior bem do que o que viria da leitura de alguns volumes. A perda material não é nada em comparação da repercussão que semelhante fato produzirá em favor da Doutrina. Deve compreender quanto uma perseguição tão ridícula e atrasada poderá fazer a bem do progresso do Espiritismo na Espanha. A queima dos livros determinará uma grande expansão das ideias espíritas e uma procura febricitante das obras dessa doutrina. As ideias se disseminarão lá com maior rapidez e as obras serão procuradas com maior avidez, desde que as tenham queimado. Tudo vai bem."
[Sobre publicar ou não na Revista Espírita:]
"Espera o auto-de-fé."
Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª Parte, "Auto-de-fé em Barcelona"

Na Revista Espírita daquele mesmo mês, Kardec publicou duas comunicações espirituais, dentre tantas, recebidas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. A primeira foi assinada pelo Espírito Dollet, que havia sido um livreiro do século XVI:

"O amor da verdade deve sempre fazer-se ouvir: ela rompe o véu e brilha ao mesmo tempo por toda parte. O Espiritismo tornou-se conhecido de todos; logo será julgado e posto em prática. Quanto mais perseguições houver, tanto mais depressa esta sublime doutrina alcançará o apogeu. Seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, atuam de maneira que ninguém possa ignorar a permissão de Deus, dada àqueles que deixaram esta Terra de exílio, de voltarem aos que amaram. Ficai certos: as fogueiras apagar-se-ão por si mesmas; e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive."
Dollet

A outra foi ditada pelo Espírito daquele que havia encarnado como frade de origem espanhola e inquisidor do Santo Ofício: São Domingos de Gusmão:

"Era necessário que algo ferisse violentamente certos Espíritos encarnados, a fim de que se decidissem a ocupar-se desta grande doutrina que vai regenerar o mundo. Nada é feito inutilmente em vossa Terra. Nós, que inspiramos o auto-de-fé de Barcelona, sabíamos perfeitamente que assim agindo daríamos um grande passo à frente. Esse fato brutal, inacreditável nos tempos atuais, foi consumado com vistas a chamar a atenção dos jornalistas que se mantinham indiferentes diante da profunda agitação que tomava conta das cidades e dos centros espíritas. Eles deixavam dizer e fazer, mas, obstinados, faziam ouvidos de mercador, respondendo pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. Queiram ou não, é preciso que hoje falem; uns, constatando o histórico do caso de Barcelona, outros o desmentindo, ensejaram uma polêmica que fará a volta ao mundo e da qual só o Espiritismo aproveitará. Eis por que hoje a retaguarda da Inquisição praticou o seu último auto-de-fé, porque assim o quisemos."
São Domingos


Cobertura da Revista Espírita

Depois de publicar o ocorrido na edição de novembro de 1861, a Revista Espírita continuou cobrindo os seus desdobramentos. Na edição de agosto do ano seguinte, a revista deu nota do falecimento do bispo de Barcelona e da sugestão que a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas recebeu de um correspondente espanhol para evocar o Espírito de Dom Antonio Palau, que se antecipou, ditando a seguinte mensagem, conforme a transcrição da revista:

"Auxiliado por vosso chefe espiritual pude vir ensinar-vos com o meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das ideias anunciadas, porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas ideias amontoadas clamarão como a voz do Anjo: Caim, que fizestes de teu irmão? Que fizestes de nosso poder, que devia consolar e elevar a Humanidade? O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como outros o são do corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual, que a sua preguiça e o seu orgulho o levaram a evitar; e essa voz terrível me disse: Queimaste as ideias e as ideias te queimarão!
Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe é dirigida pelo perseguido em benefício do perseguidor.
Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente."
Dom Antonio Palau (Espírito)

Comentando a mensagem do bispo, Kardec escreve: "Não podemos censurá-lo, pelo triplo motivo de que o verdadeiro espírita a ninguém condena, não guarda rancor, esquece as ofensas e, a exemplo do Cristo, perdoa aos seus inimigos; em segundo lugar, longe de nos prejudicar, ele nos foi útil; enfim, porque reclama de nós a prece do perseguido para o perseguidor, como a mais agradável a Deus, pensamento todo caridade, digno da humildade cristã, revelada pelas últimas palavras: 'Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente'. Bela imagem das dignidades terrenas deixadas à beira do túmulo, para se apresentar a Deus tal que se é, sem os aparatos impostos aos homens". Logo mais, faz uma exortação aos confrades espíritas: "Espíritas, perdoemos-lhe o mal que nos quis fazer, como quereríamos que as nossas ofensas nos fossem perdoadas e oremos por ele no aniversário do auto-de-fé de 9 de outubro de 1861."

Em setembro de 1864, o periódico notificava que o novo bispo de Barcelona, Dom Pantaleão Monserra y Navarro, trilhava pelos mesmos costumes medievais de Dom Antonio Palau, numa cruzada contra o Espiritismo, conforme a transcrição de uma pastoral do eclesiástico, da qual extraímos o seguinte trecho:

"A geração atual se vê obrigada a assistir a esse triste espetáculo que hoje nos dão os povos mais adiantados em ciência e em civilização. Os Estados Norte-Americanos, essa nação chamada modelo, e algumas partes da França, aí compreendida a colônia da Argélia, esforçam-se, desde algum tempo, ao estudo ridículo e à aplicação do Espiritismo, que, sob esse nome, vem ressuscitar as antigas práticas da necromancia, pela evocação dos Espíritos invisíveis, que repousam no lugar de seu destino, além do sepulcro, e os consultam para descobrir os segredos ocultos sob o véu que Deus estendeu entre o tempo e a eternidade."
Dom Pantaleão Monserra y Navarro, bispo de Barcelona


Refutando as acusações dessa pastoral, o codificador espírita finaliza com um recado direto ao bispo: "E vos admirais, monsenhor, dos progressos da incredulidade! Antes vos deveríeis admirar de que, em pleno século dezenove, a religião do Cristo seja tão mal compreendida pelos que são encarregados de ensiná-la. Não fiqueis, pois, surpreso se Deus envia seus Espíritos bons para lembrarem o sentido verdadeiro de sua lei. Eles não vêm para destruir o Cristianismo, mas para libertá-lo das falsas interpretações e dos abusos que nele introduziram os homens."

Ver História do Espiritismo.


Referências

  • Revista Espírita, Allan Kardec - especialmente: Novembro de 1861; Agosto de 1862; Setembro de 1864.
  • Obras Póstumas, Allan Kardec - especialmente 2ª Parte, "Auto-de-fé em Barcelona: Apreensão dos livros".
  • O que é o Espiritismo?, Allan Kardec - especialmente: "Biografia de Allan Kardec, por Henri Sausse"




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