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Índice de verbetes



Espiritualismo Moderno



Espiritualismo Moderno — ou, Moderno Espiritualismo; também denominado Neoespiritualismo ou simplesmente Espiritualismo (em inglês, Modern Spiritualism ou apenas Spiritualism) — é o movimento surgido em meados do século XIX, de caráter religioso e científico, cuja proposta elementar é evidenciar a sobrevivência da alma após a morte e a comunicabilidade dos mortos (Espíritos, desencarnados), baseando-se especialmente nas manifestações ditas sobrenaturais que então vieram à tona desde aquele século, a exemplo do fenômeno das Mesas Girantes. Considera-se como seu marco o famoso caso de Hydesville, EUA, envolvendo as irmãs Fox — quando foram criados diversos sistemas de interpretação das mensagens espirituais —, embora não se despreze os fatos precursores do movimento, notadamente os que envolvem Swedenborg, Mesmer, Edward Irving e Andrew Jackson Davis. O Espiritualista Moderno não é um movimento centralizado e sistematicamente definido, mas um conjunto generalizado e fracionado em vários segmentos, conforme as ideias dele resultantes. Em certos aspectos, é considerado como uma renovação da necromancia clássica, ou seja, na interação com os Espíritos, para o que foram desenvolvidos variados sistemas de comunicação (por exemplo: o código de batidas, a brincadeira do copo, o tabuleiro ouija etc.), algumas vezes sendo confundido com o esoterismo, misticismo e ocultismo. As primeiras articulações mais bem sucedidas foram aquelas movidas pelo interesse científico de provar a vida espiritual em contrapartida ao Materialismo, às quais aderiram eminentes homens da Ciência, como Sir William Crookes, Alfred Russel Wallace, Oliver Lodge, Alexandre Aksakof, Charles Richet, Camille Flammarion, Gabriel Delanne etc., por ocasião da exposição de célebres médiuns, como Daniel Dunglas Home, Eusápia Palladino, Elizabeth D'Espérance, Linda Gazzera etc. O movimento espiritualista antecedeu e preparou o Espiritismo, que, de alguma forma, é produto daquele e, ao mesmo tempo, sua síntese. Frequentemente, em razão de muitas semelhanças, Espiritualismo e Espiritismo são empregados como sinônimos, embora a Doutrina Espírita — embora seja essencialmente espiritualista — tenha uma base doutrinária bem definida, cujos princípios escapam da generalidade do Espiritualismo, a exemplo da Lei de Reencarnação, que é um fundamento espírita e uma controvérsia entre as várias correntes espiritualistas. O escritor Arhur Conan Doyle é lembrado como um dos grandes expoentes do movimento espiritualista, seja pelo seu ativismo em propagar os conceitos espiritualistas, seja pelo registro literário que nos legou em A História do Espiritualismo.



Raízes históricas

O movimento Espiritualismo Moderno do século XIX se fundamenta basicamente na concepção comum de espiritualidade, qual seja a ideia de existência e supremacia de um mundo transcendental (plano espiritual), além da nossa dimensão física, cuja característica elementar é a da existência do Espírito (alma, o ser sobrevivente após a morte física), e de onde partem a valência de valores superiores (leis naturais que regem o Universo). É dessa crença fundamental que partem todas as mitologias e religiões e seus conceitos particulares, por exemplo, teísmo, politeísmo, sacramentos, penas eternas, karma, reencarnação etc.

A crença espiritual — ou seja, a de Espiritualidade — é a predominante, em todos os povos e em todos os tempos, a exemplo da crença numa potência superiora (Deus), como assinala a Codificação Espírita:

Que conclusão se pode tirar do sentimento intuitivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?
"Que Deus existe; pois, de onde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma consequência daquele princípio — não há efeito sem causa."
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - Questão 5

A tese, proposta por alguns materialistas, de que essa ideia espiritual tenha sido fruto de ensinamento religioso é refutada pela observação de que ela é um fenômeno universal, presente nos povos mais primitivos, onde há ausência de qualquer tipo de catecismo.

"Espiritualismo é um sistema de pensamento e de conhecimento que se pode conciliar com qualquer religião. Os fatos básicos são a continuidade da personalidade e o poder de comunicação após a morte. Estes dois fatos básicos são de tão grande importância para um brâmane, um maometano ou um parse, quanto para um cristão. Assim, o Espiritualismo faz um apelo universal. Há apenas uma escola de pensamento com a qual é absolutamente irreconciliável: é a escola do materialismo, que sustenta o mundo em suas garras no presente e é a causa fundamental dos nossos infortúnios. Portanto a compreensão e a aceitação do Espiritualismo são essenciais à salvação da humanidade, que de outro modo está fadada a descer cada vez mais no puro utilitarismo e no ponto de vista egoísta do universo."
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - Cap. 24

De encontro à ideia de Espiritualidade está o materialismo, quer dizer, a concepção de que a vida e todas as manifestações psíquicas (sensação, sentimento, inteligência e criatividade) não passem de fenômenos físicos, produzidos pelo corpo orgânico que têm princípio no nascimento e se extinguem com a morte de cada indivíduo. É esta concepção, aliás, a que se revela originária das disposições intelectivas, muito em razão da propagação de certas teses supostamente científicas e bastante recentes — conquanto carecedoras de sólidos fundamentos da própria ciência.

Ver Espiritualidade e Materialismo.




Comunicablidade espiritual

Ao lado da crença espiritual, desenvolveu-se, desde os mais remotos registros da Humanidade, a concepção da possibilidade de se comunicar com os seres espirituais, para a qual se verifica, em diversas civilizações antigas, o surgimento de determinados cultos e sacrifícios que caracterizavam a necromancia dos ancestrais.

Assim é que, no intento de falar com os mortos e receber profecias do além, registra-se a cultura dos visionários iniciáticos do Antigo Egito, as pitonisas gregas, os profetas judeus, os marabutos islâmicos, as sibilas romanas, os druidas celtas etc. Nesse aspecto, o Espiritualismo originário do século XIX é visto como continuidade dessa antiga tradição, embora a comunicabilidade espiritual moderna se caracterize mais pela espontaneidade das comunicações, e, mesmo quando havia evocações, os médiuns normalmente agiam desprovidos de ritualismos místicos.


Precursores do Espiritualismo Moderno

Duas importantes personagens da Idade Média reviveceram o contato espiritual e, por essa razão, podem ser apontados como precursores do Espiritualismo Moderno. São eles os franceses: Joana d'Arc (1412-1431) e Michel de Nostradamus (1503-1566). Contudo, como a partir destes não se desenvolveu diretamente qualquer movimento acentuado voltado à prática mediúnica, considerando-os episódios particulares, alguns estudiosos optam por marcar a antecedência do Espiritualismo Moderno começando pelo Swedenborgianismo. Por aproximadas razões o mesmo tem sido aplicado a estes três experimentadores místicos: o inglês John Dee (1527-1608) e os alemães Jakob Böhme (1575-1624) e Justinus Kerner (1786-1862), apesar da importância que suas obras ganharam após a deflagração do movimento espiritualista em função da concordância de certos conceitos por eles revelados.



Desta feita, os considerados precursores do Espiritualismo Moderno são:

  • Emanuel Swedenborg (1688-1772): polímata sueco, que teve uma série de desdobramentos espirituais pelos quais obteve revolucionárias revelações da vida espiritual, que ele resumiu na sentença "O mundo dos espíritos abriu-se para mim", abrindo caminho para novas interpretações teológicas e influenciando uma sucessiva geração de pensadores, resultando num movimento chamado Swedenborgianismo e a fundação da Igreja Nova.
  • Franz Anton Mesmer (1734-1815): esse médico alemão não teve experimentação espiritual direta, mas acabou desenvolvendo a teoria do Magnetismo Animal, que mais tarde seria a chave para a compreensão dos fenômenos físicos provocados pelos Espíritos.
  • Edward Irving (1792-1834): teólogo escocês que mobilizou uma significante reforma religiosa baseando-se na fenomenologia espiritual de que foi testemunha, em sua igreja. Apesar de seu fundamentalismo religioso, Irving e seus seguidores contribuíram para adubar o terreno pedregoso de setores conservadores para as novas revelações que estavam por vir.
  • Os Shakers: comunidade instalada nos Estados Unidos, vindo da Inglaterra por conta da perseguição que sofriam da parte de cristãos fanáticos em decorrência de suas práticas espirituais, que incluíam evocação de Espíritos. Mais tarde, ver-se-ia a conexão de muitas de suas concepções com as revelações espiritualistas modernas.
  • Andrew Jackson Davis (1826-1910): norte-americano, de origem humilde, que obteve, via transe mediúnico, extraordinárias revelações de renomadas entidades espirituais (dentre as quais Emanuel Swedenborg), conforme se verifica em sua obra literária, tendo, inclusive, previsto a formação do movimento espiritualista Moderno — então descrito como "invasão organizada de Espíritos" — então descrito como "invasão organizada de Espíritos" — pelo que Davis é reconhecido como "O Profeta da Nova Revelação".


O episódio de Hydesville e as irmãs Fox

No diário de Andrew Jackson Davis, já depois de seu falecimento, foi encontrada uma nota datada de 31 de março de 1848 que assim discorria:

"Esta madrugada um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz, suave e forte, dizer: 'Irmão, um bom trabalho foi começado — olha! Surgiu uma demonstração viva'. Fiquei pensando o que queria dizer semelhante mensagem."
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - Cap. 3

O que Davis ignorava era que naquela precisa data se daria o marco da tal "invasão organizada de Espíritos" e estabelecimento do Espiritualismo Moderno — uma data simbólica, com efeito, uma vez que a interação espiritual na Terra é de todos os tempos da História da Humanidade, bem como está de acordo Conan Doyle:

"É impossível precisar uma data para as primeiras aparições da força inteligente exterior, de maior ou menor elevação, influindo nas relações humanas. Os espiritualistas costumam tomar a data de 31 de março de 1848 como o começo dos acontecimentos psíquicos, pois suas próprias manifestações datam naquela data. Entretanto não há época na história do mundo em que não encontramos traços de interferências preternaturais e o seu posterior reconhecimento pela humanidade. A única diferença entre esses episódios e o movimento moderno é que aqueles podem ser apresentados como casos esporádicos de extraviados de uma esfera qualquer, enquanto os últimos têm as proporções de uma invasão organizada."
Idem - Cap. 1

A predita data coincide com o início de famoso "episódio de Hydesville", vivido pela família Fox, instalada numa modesta casa naquele pequeno vilarejo no interior do Estado de Nova Iorque, EUA, quando, diante de uma série de insólitas manifestações físicas (Poltergeist), como batidas nas paredes e nos móveis, além de arrastamento de objetos da casa, iniciou-se um diálogo com o suposto agente daqueles fenômenos — admitido como um Espírito.

"Foi nessa noite que um dos grandes pontos da evolução psíquica foi alcançado, desde que foi nessa noite que a jovem Kate Fox desafiou a força invisível a repetir as batidas que ela dava com os dedos (...)
O desafio da mocinha — embora tivesse sido feito em palavras brandas — foi imediatamente respondido. Cada pedido era respondido por um golpe (...)
A mãe fez uma série de perguntas, cujas respostas, dadas em números, mostravam maior conhecimento de seus próprios negócios do que ela mesma o possuía, pois os arranhões insistiam em que ela tinha tido sete filhos, enquanto ela protestava que só tinha tido seis, até que veio à sua mente um que havia morrido em tenra idade. Uma vizinha, Mrs. Redfield, foi chamada e sua distração se transformou em maravilha e, por fim, pavor, quando teve respostas corretas a questões íntimas."
Idem - Cap. 4



Por seguidos dias, as manifestações se sucederam na casa dos Fox, na presença de um número cada vez maior de testemunhas, ocasião na qual foram desenvolvidos alguns códigos para a interpretação da mensagem que o tal "fantasma" transmitia. As evidências davam conta de se tratar de um mascate (Charles B. Rosma), que havia ali sido roubado, assassinado e ocultamente sepultado por antigos moradores daquela residência.

Pelo fato de novas manifestações espirituais terem sido notificadas na presença das jovens irmãs Catherine (Kate) e Margaret (Maggie) Fox, desde quando foram morar com a irmã mais velha Leah, em Rochester, creditou-se às meninas o "poder de trazer Espíritos" e elas passaram a participar de sessões públicas de evocação em um grande salão da cidade — o Corinthian Hall. A efetividade dos fenômenos produzidos nas sessões com as irmãs Fox foi averiguada por importantes autoridades e amplamente divulgada pela imprensa americana, que logo em seguida passaria a registrar eventos cada vez mais frequentes envolvendo suposta ação sobrenatural.

Ver Irmãs Fox.


A febre das Mesas Girantes

A vistosa carreira mediúnica das irmãs Fox acabaram por encorajar outros sensitivos a revelarem suas capacidades medianímicas — até então enrustidas, pelo óbvio receio de preconceitos e atentados que, em geral, os médiuns sofriam. Logo mais, evocadores e experimentadores das sessões espiritualistas se multiplicaram nos grandes centros urbanos e daí surgiu a febre das Mesas Girantes.

Numa típica sessão de Mesas Girantes de meados do século XIX, os experimentadores sentavam-se no entorno de uma mesa, geralmente de mãos dadas, pelo que, dava-se preferência às mesas redondas. Depois de rápida prece (solicitando a proteção de Deus), evocava-se o nome de um determinado falecido ou (mais comumente) pediam a intervenção de Espíritos quaisquer que ali pudessem se manifestar.

Em certas sessões, a manifestação era apenas de caráter físico: as mesas giravam, saltavam, dançavam e batiam com os pés, em movimentos com direção, intensidade e ritmo aleatórios, fora do controle dos evocadores, evidenciando a existência de uma força invisível, um agente sobre-humano — que se convencionou chamar Espírito (ser desencarnado).



Noutros casos, os evocadores colhiam comunicações espirituais pela aplicação de códigos especialmente desenvolvidos para interpretar a mensagem ditada através daqueles fenômenos físicos. No mais rudimentar deles, os evocadores levantavam uma questão e solicitavam aos Espíritos a confirmação, através de duas batidas, ou a negação, através de uma única batida. Noutro sistema, cada letra do alfabeto era associada a um determinado número de pancadas (por exemplo, uma batida para a letra "A", duas para a letra "B", três para "C" e assim por diante) e, com isso, os experimentadores iam montando palavras, frases e até longos textos que os mensageiros espirituais deletreavam. Por outro método, a inscrição de letras e números era distribuída sobre uma mesa contendo um ponteiro, que, movido espiritualmente, ditavam os caracteres até compor a comunicação desejada. Mais adiante foi criado o tabuleiro ouija, também destinado à soletração de mensagens espirituais.

Ver Mesas Girantes.


Expansão do movimento espiritualista

A febre das Mesas Girantes é exportada dos EUA para a Europa e daí espalhou-se pelos salões mundo afora, desencadeando, depois do espanto e da primeira onda de curiosidade, uma discussão mais séria a respeito das consequências filosóficas e científicas das pretensões do nascente movimento.

Dentre os seus pioneiros destaca-se a figura da inglesa Emma Hardinge Britten (1823-1899). Ela viveu sua juventude na América do Norte bem no alvorecer do movimento espiritualista, quando então descobriu sua mediunidade. A partir daí, como escritora e médium, tornou-se uma grande ativista da causa, enfatizando em suas obras — especialmente Espiritualismo Moderno Americano e Milagres do Século Dezenove — o valor prático da nova revelação, a começar pelas evidências da imortalidade da alma e a comunicabilidade dos Espíritos. Ela também colocou no mesmo contexto espiritualista a defesa pela igualdade dos direitos da mulher e nesse particular foi igualmente uma expoente relativamente bem sucedida, pelo que se registra a maciça presença do público feminino daquele movimento.

Logo mais surgiriam diversos órgãos institucionais para articular o movimento. Em 10 de junho de 1854 foi fundada na cidade de Nova Iorque, EUA, a Sociedade para a Difusão do Conhecimento Espiritualista, que no mesmo dia lançou já a primeira edição do seu jornal The Christian Spiritualist, o primeiro periódico específico sobre o Espiritualismo Moderno.

Sem demora, a onda espiritualista americana e as Mesas Girantes chegam à Europa e fomentam discussões acaloradas sobre espiritualidade. Em geral, no meio religioso, prevaleceu a desaprovação e o anátema; nos círculos acadêmicos, o preconceito e a negação sistemática. No entanto, a exuberância dos fenômenos espirituais, paulatinamente mais ostensivos, mexia com todos os espíritos, pois foi uma época de surgimento de notáveis médiuns de efeitos físicos, como Daniel Dunglas Home, Eusápia Palladino, Sra. Hayden, Elizabeth D'Espérance, William Eglinton, Linda Gazzera, Leonora Piper, William Stainton Moses, Eva Carrière etc.

Dois importantes veículos de imprensa representaram o movimento espiritualista: o jornal semanal Banner of Light, cuja primeira edição foi lançada em Boston, EUA, em 11 de abril de 1857; e o Light, também semanário, lançado em 8 de janeiro de 1881, na Inglaterra.


A fase do exibicionismo, exploração financeira e mistificação

Nem todos, porém, compreenderam a seriedade daquele movimento revolucionário e a "moda" espiritualista também deu azo à banalidade. Muitos médiuns foram seduzidos ou deliberadamente partiram para o exibicionismo, vendendo espetáculos com seus dotes paranormais, por interesses particulares e para satisfazer a curiosidade do público. Some-se a isso o fato de muitos médiuns exibicionistas — a título de "sofisticar" seus espetáculos — mistificarem fenômenos, simulando dons mediúnicos de que não eram portadores ou em ocasiões em que não eram assistidos pela espiritualidade, uma vez que eles não detinham o controle das manifestações. Além destes, vieram ainda os ilusionistas profissionais tentando passar-se por médiuns e promovendo os mais variados espetáculos.

Muito mais do que o problema da futilidade de se usar a espiritualidade para promoção material, os frequentes flagras de embuste e charlatanismo foram bastante prejudiciais à reputação da causa espiritualista, especialmente quando envolviam nomes de celebridades do meio mediúnico, como as fraudes verificadas em espetáculos dos irmãos Davenport e dos irmãos Eddy, que outrora eram considerados extraordinários médiuns.

Também escandalosos e bem nocivos foram os controvertidos depoimentos dados pelas irmãs Fox, ora negando a veracidade dos fenômenos, ora desdizendo a confissão anterior, alegando o recebimento de pagamento para agradar a interesses externos.




Allan Kardec e a Codificação Espírita

O Espiritualismo vagueava mundo afora sobre as mais generalizadas ideias, sem uma estruturação que reunisse o orientasse os simpatizantes da causa, até o lançamento de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em 18 de abril de 1857, que, por assim dizer, é o marco inaugural do Espiritismo — a doutrina que se apresenta como uma síntese da revelação promovida pela espiritualidade em prol da evolução espiritual da Humanidade. A Doutrina Espírita, codificada por Kardec, vem então apresentar os fundamentos da Natureza superiora como solução para os grandes conflitos filosóficos, quais sejam: a compreensão da origem, essência e destinação do homem, além de oferecer explicações de caráter científico para aquela fenomenologia espiritual, admitindo as manifestações medianímicas como fenômenos naturais, em oposição a qualquer hipótese de milagre e misticismo.



A metodologia lógica e racional aplicada por Kardec na codificação da Doutrina Espírita foi impactante no meio espiritualista, principalmente na explanação do processo mediúnico — para a qual os conceitos kardecistas de perispírito e de fluidos foram categóricos — e na formatação de seu código de conduta moral — cuja virtude prevalecente é a da Caridade. Enfim, os espiritualistas passaram a ter um direcionamento doutrinário, embora o conceito espírita da lei de reencarnação não fosse bem aceito por alguns círculos espiritualistas.

Ver Espiritismo.


A confusão entre Espiritualismo e Espiritismo

Ao codificar a nova doutrina, como síntese filosófica para o movimento espiritualista, Kardec preferiu criar um neologismo para intitulá-la: espiritismo; e mais dois como seus adjetivos: espírita e espiritista.

"Para designar coisas novas são necessárias palavras novas. Assim exige a boa compreensão, para evitar a confusão que ocorre com as palavras que têm vários sentidos. Os termos: espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma definição bem definida, e acrescentar a eles nova significação, para aplicá-los à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar os casos de numerosas palavras com muitos significados. De fato, o Espiritualismo é o oposto do materialismo. Aquele que acredita haver em si alguma coisa além da matéria é espiritualista. Entretanto, isso não quer dizer que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, nós usamos, para indicar a crença nos seres espirituais, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido da raiz da palavra e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente compreensíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a significação que lhe é própria. (...) Diremos, pois, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas."
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos - Introdução, item I

Nesse contexto, Espiritismo é posto como sinônimo daquele movimento espiritualista, e o próprio codificador espírita vai chamar o Espiritualismo Moderno de "Espiritismo Americano", destacando o diferente escopo originário de cada qual:

"Algumas pessoas perguntam por que a Doutrina Espírita não é a mesma no antigo e no novo continente, e em que consiste a diferença. É o que vamos tentar explicar. (...)
O que particularmente distingue a escola espírita dita americana da escola europeia é a predominância, na primeira, da parte fenomênica, à qual se ligam mais especialmente e, na segunda, a parte filosófica."
Allan Kardec, Revista Espírita, maio de 1864 - "A escola espírita americana"

Logo mais, Kardec vai minimizar as diferenças:

"Em que o Espiritismo americano difere, então, do Espiritismo europeu? Seria porque um se chama Espiritualismo e o outro Espiritismo? Questão pueril de palavras, sobre a qual seria supérfluo insistir. De um e do outro lado a coisa é vista de um ponto muito elevado para semelhante futilidade. Talvez ainda difiram em alguns pontos de forma e de detalhes, muito insignificantes, que se devem mais aos usos e costumes de cada país do que ao fundo da Doutrina. O essencial é que haja concordância sobre os pontos fundamentais, e é o que ressalta, com evidência, da comparação acima. (...) A única diferença consiste em que o Espiritismo europeu admite essa pluralidade de existências na Terra, até que o Espírito tenha atingido aqui o grau de adiantamento intelectual e moral que comporta este globo. (...) Poderá estar aí uma causa de antagonismo entre criaturas que perseguem um grande objetivo humanitário? (...) Em suma, como se vê, a maior barreira que separa os espíritas dos dois continentes é o Oceano, através do qual eles podem perfeitamente dar-se as mãos. "
Allan Kardec, Revista Espírita - abril de 1869: "Profissão de fé espírita americana"

No entanto, o movimento espírita subsequente vai observar que o Espiritualismo na América do Norte e na Inglaterra (conhecido por Espiritualismo anglo-saxão) acabou não se fundindo com a doutrina kardecista e, por outro lado, caminhado ainda mais para uma generalidade de conceitos e o sincretismo, até ser praticamente absorvido pelo ocultismo em geral, do qual o Espiritismo se distancia e, por isso, os espíritas então veem a necessidade de distingui-lo do Espiritualismo.

A caracterização do contexto espírita frente à generalidade das demais práticas espiritualistas — especialmente ao que o filósofo Herculano Pires chama de mediunismo — serve de prevenção para que não se confunda a prática inerente ao Espiritismo, doutrinariamente pautada na razão e na lógica científica e nos preceitos morais da caridade, com o exercício espiritual e com os objetivos alheios. Dessa forma, o movimento espiritualista e o movimento espírita ganham cada qual peculiaridades próprias que os distinguem um do outro, sendo o primeiro mais genérico e místico enquanto este último é racional e doutrinariamente sistematizado, de modo que Espiritualismo e Espiritismo não mais são interpretados como vocábulos equivalentes.


O Espiritualismo e o Cientificismo

O tradicional comportamento cético das academias, a vulgaridade das evocações e os constantes flagrantes de falsas manifestações espirituais mantiveram o meio científico por algum tempo um tanto longe do movimento espiritualista. Contudo, a evidência dos autênticos fenômenos rechamava uma atenção especial e, embora relutantes, muitos nomes notáveis das ciências no final do século XIX propuseram-se a averiguar a veracidade espiritual — quase sempre com o intento inicial de "desmascarar" aquela fenomenologia. O resultado foi que os mais célebres cientistas da época que profundamente estudaram os fenômenos mediúnicos acabaram convencidos pelos fatos e admitiram a natureza espiritual como agente dos mais diversos tipos de manifestações, notadamente as de ectoplasmia (materializações de formas espirituais).



O mais exemplar trabalho das pesquisas psíquicas daquela geração foi o do químico e físico inglês William Crookes (1832-1919), cavaleiro real e mais respeitado cientista de seu tempo, presidente da Royal Society (Real Sociedade de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural) entre 1913 e 1915. Representando sua sociedade cientifica, o Professor Crookes encabeçou uma comissão especial de investigação, determinado a aplicar todos os rigores da ciência para estabelecer a verdade diante do Espiritualismo.

"Confessa Crookes que iniciou as suas investigações sobre fenômenos psíquicos pensando que tudo fosse truque. Seus colegas sustentavam o mesmo ponto de vista e ficaram satisfeitos com a atitude que ele havia adotado. Foi manifestada profunda satisfação porque a investigação ia ser conduzida por um homem tão altamente qualificado. Quase não duvidavam de que aquilo que consideravam as falsas pretensões do Espiritualismo fosse desmascarado. Disse um escritor: 'Se homem como Mr. Crookes trata do assunto... em breve saberemos em que acreditar'."
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - Cap. 11

Em face da exuberância dos fenômenos produzidos por vários médiuns por ele estudados — com destaque para Eusapia Palladino, D. D. Home e Florence Cook — o Professor Crookes não hesitou em concluir: "Estou absolutamente convencido que uma conexão foi estabelecida entre este mundo e o outro."

Outros respeitáveis pesquisadores se debruçaram sobre os fenômenos psíquicos e atestaram a existência de uma força dita sobrenatural, que se atribuía à ação dos Espíritos. Dentre os quais, ressaltamos o famoso médico criminalista italiano Cesare Lombroso (1835-1909), o biólogo e naturalista britânico Alfred Russel Wallace (1823-1913), o físico inglês Oliver Lodge (1851-1940), o astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925), o astrônomo alemão Friedrich Zöllner (1834-1882), o filósofo italiano Ernesto Bozzano (1862-1943), o engenheiro francês Gabriel Delanne (1857-1926) e o diplomata russo Alexandre Aksakof (1832-1903).

Sociedades científicas foram especialmente criadas para pesquisar a fenomenologia espiritual, dentre as quais, a Society for Psychical Research, a American Society for Psychical Research e o Institut Métapsychique International. Porém, aquelas pesquisas vagaram num cientificismo improfícuo, em meio a tantas apelações teóricas em detrimento dos valores filosóficos e morais que aquela revelação espiritual vinha trazer à Humanidade. Ficou também evidente o preconceito científico contra aquela natureza metafísica — muito em razão do temor da volta do prevalecimento do religiosismo sobre a ciência, como na Era Medieval.


Movimento Espiritualista na atualidade

As controvérsias científicas não contribuíram a contento para firmar o Espiritualismo Moderno, que. por sua vez, adentrou o século XX com ideias ainda mais dispersas, tomando feições continuamente sincréticas, místicas e ocultistas, também desembocando em movimentos novos como o New Age (Nova Era) e Ufologia. A partir da década de 1920, igrejas espiritualistas começaram a se estabelecer especialmente nos Estados Unidos da América (muitas delas associadas à National Spiritualist Association of Churches) e no Reino Unido (onde muitas delas compõem a associação Spiritualists' National Union), resgatando as origens do movimento espiritualista (fundamentalmente a prática da evocação dos Espíritos e desdobramentos espirituais) inserindo-as num culto muito próximo aos dos protestantes pentecostais. Diferentemente dos espíritas, que seguem a linha doutrinária kardecista, esses neoespiritualistas não sistematizaram qualquer doutrina, embora conservem os fundamentos tradicionais do movimento espiritualista do século XIX, quais sejam: a crença na divindade, na imortalidade da alma e na interação deste mundo com o mundo espiritual.



O apanhado historiográfico mais referenciado pelos espiritualistas é a obra espiritualista do médico e escritor britânico Arthur Conan Doyle, especialmente The History of Spiritualism, originalmente publicada em 1926. A primeira tradução deste livro para o Brasil foi feita por Júlio de Abreu Filho, lançada pela Editora Pensamento, com o título A História do Espiritismo. Posteriormente, uma nova tradução foi publicada, assinada por Louis Neilmoris, agora intitulada A História do Espiritualismo, contextualizando assim a distinção entre os dois movimentos — Espiritualismo e Espiritismo. Além de seus escritos, Conan Doyle foi um grande ativista do movimento, participando de — e, inclusive, presidindo — algumas instituições do gênero, como a Federação Espiritualista Internacional, a Aliança Espiritualista de Londres e o Colégio Britânico de Ciência Psíquica.


Referências

  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec (Ler online)
  • A Histórica do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle, tradução de Louis Neilmoris (ler online).
  • Artigo "O histórico 31 de Março e a confusão comum entre Espiritualismo e Espiritismo", Blog Espiritismo em Movimento.
  • Autores Espíritas Clássicos - site oficial.
  • O Espírito e o Tempo, José Herculano Pires (ler online) - especialmente o capítulo I.
  • Arquivos recuperados do Banner of Light (em inglês).
  • Arquivos recuperados do Light (em inglês).
  • ISF - International Spiritualist Federation - site oficial.




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