Compartilhe esta página no: Compartilhar no Twitter Compartilhar no Facebook Compartilhar no Google Plus



Índice de verbetes



O Livro dos Espíritos



O Livro dos Espíritos, traduzido do original em francês Le Livre des Esprits, escrito por Allan Kardec, é a primeira das obras básicas da Codificação Espírita. A publicação de sua primeira edição, em 18 de abril de 1857, em Paris, França, é considerada o marco do lançamento do Espiritismo, uma vez que se empresta justamente a lançar os princípios fundamentais da Doutrina Espírita. A obra foi substancialmente ampliada na sua segunda edição, publicada três anos depois de seu original. Seu conteúdo principal é em formato dialético, distribuído em questões enumeradas, que em sua maioria se compõe de pergunta (formulada por Kardec) e resposta (síntese colhida junto a diversos Espíritos), numa espécie de entrevista, algumas vezes com o acréscimo de comentários (de Kardec); outras questões são constituídas de ensaios filosóficos do autor a respeito de assuntos relativos aos fundamentos espíritas. Além desse conteúdo principal, o livro traz ainda uma introdução, um prefácio (intitulado Prolegômenos) e uma conclusão.


Sobre o título e sua epígrafe

O título "O Livro dos Espíritos" dá ênfase ao propósito de Allan Kardec de atribuir o mérito das revelações contidas na obra aos Espíritos, sem os quais o livro não poderia existir. Sem dúvidas, uma modesta atitude do codificador, embora seja explícito o seu extraordinário trabalho na elaboração da obra.

O livro classifica-se pelo gênero "Filosofia Espiritualista", portanto, uma obra filosófica, e seu epíteto expressa a própria designação daquele trabalho:

"Sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade – segundo os ensinos dados por Espíritos superiores com a cooperação de diversos médiuns – recebidos e coordenados por: Allan Kardec"


Dados históricos e repercussão

O Livro dos Espíritos é fruto de cerca de dois anos de estudos e pesquisas realizadas pelo pedagogo francês Hippolyte-Léon Denizard Rivail acerca da Revelação Espírita, iniciada com a observação dos fenômenos das Mesas Girantes e com a revelação da missão reencarnatória a qual o professor Rivail havia se comprometido espiritualmente. Em meio a essa empreitada, o codificador serviu-se da colaboração de diversos médiuns (uma vez que ele próprio não dispunha de mediunidade), por quem pôde ter contato com os Espíritos inspiradores da nova doutrina, dentre os quais, aqueles conhecidos como Sócrates, Platão, João Evangelista, Santo Agostinho, Fénelon, São Luís e o Espírito Verdade (guia particular do codificador).


"Tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros médiuns, sempre que se apresentava ocasião eu a aproveitava para propor algumas das questões que me pareciam mais espinhosas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram auxílio a esse trabalho. Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos."
Allan Kardec - Obras Póstumas - 2ª Parte, "A minha primeira Iniciação ao Espiritismo"

Abraçando essa tarefa revolucionária, ele então redigiu a obra e a publicou, assinando pelo pseudônimo Allan Kardec (mesmo nome que tivera em uma de suas reencarnações, quando havia sido um sacerdote druida dentre os celtas).

Sua primeira edição foi editada e impressa pela Editora Dentu, sob a responsabilidade de Édouard Dentu, e oficialmente oferecido ao público em 18 de abril de 1857, na Livraria Lèdoyen, na Galeria de Orleans, dentro do Palais-Royal de Paris, França. Subsequentemente, seria reeditada pela Editora Didier. Admirado com o esplendor de seu conteúdo, o novo editor da publicação, Pierre-Paul Didier, logo mais se tornaria membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, amigo íntimo de Kardec e fervoroso espírita.



A publicação original continha apenas 501 questões, além da introdução, prolegômenos e conclusão. As perguntas formuladas por Kardec foram encaminhadas a diversos Espíritos, através da cooperação de alguns médiuns, dentre os quais se destacam: as jovens irmãs Caroline e Julie Boudin (respectivamente, com 16 e 14 anos à época), Celine Japhet (com 18 anos à época) e a senhorita Ermance Defaux (14 anos na época).

A segunda edição francesa, publicada em 18 de março de 1860, duplicou seu conteúdo principal, passando então para 1019 questões, consistindo o conteúdo definitivo desta obra para as demais reimpressões e traduções. A Revista Espírita de março de 1860 anunciou o seu lançamento qualificando-a de "Inteiramente refundida e consideravelmente aumentada". Esta chamada diz:

"Na primeira edição desta obra, anunciamos uma parte suplementar. Devia compor-se de todas as questões que ali não puderam entrar, ou que circunstâncias ulteriores e novos estudos deveriam originar. Mas como todas se referem a alguma das partes já tratadas, e das quais são o desenvolvimento, sua publicação isolada não teria apresentado nenhuma continuidade. Preferimos aguardar a reimpressão do livro para incorporar todo o conjunto, e aproveitamos para dar à distribuição das matérias uma ordem muito mais metódica, suprimindo ao mesmo tempo tudo quanto tivesse duplo sentido. Esta reimpressão pode, pois, ser considerada como obra nova, embora os princípios não tenham sofrido nenhuma alteração, salvo pouquíssimas exceções, que são antes complementos e esclarecimentos do que verdadeiras modificações. Esta conformidade com os princípios emitidos, apesar da diversidade das fontes em que foram hauridos, é um fato importante para o estabelecimento da ciência espírita. Prova nossa própria correspondência que comunicações em tudo idênticas, se não quanto à forma, ao menos quanto ao fundo, foram obtidas em diferentes localidades, e isso muito antes da publicação do nosso livro, o que veio confirmá-las e dar-lhes um corpo regular. Por seu lado, a História atesta que a maioria desses princípios tem sido professada pelos homens mais eminentes, dos tempos antigos e modernos, assim trazendo a sua sanção."
Allan Kardec, Revista Espírita, março de 1860 - "O Livro dos Espíritos, 2ª edição"


Indiretamente, a reformulação da obra a partir da segunda edição já haiva sido predita a Kardec. Numa sessão mediúncia realizada em 17 de junho de 1856, o Espírito Verdade, guia particular do codificador, advertia-o para as devidas correções e a revisão futura:

Kardec — Uma parte da obra foi revista, teria a bondade de dizer o que pensa dela?
Espírito Verdade — "O que foi revisto está bem; mas, quando a obra estiver acabada, deverá tornar a revê-la, a fim de ampliá-la em certos pontos e abreviá-la noutros."
Kardec — Entende que deva ser publicada antes que os acontecimentos preditos se tenham realizado?
Espírito Verdade — "Uma parte, sim; tudo não, pois, afirmo-te, vamos ter capítulos muito espinhosos. Por muito importante que seja esse primeiro trabalho, ele não é, de certo modo, mais do que uma introdução. Assumirá proporções que agora está longe de suspeitar. Tu mesmo compreenderá que certas partes só poderão ser reveladas muito mais tarde e gradualmente, à medida que as novas ideias se desenvolverem e enraizarem. Dar tudo de uma vez seria imprudente. Importa dar tempo para que a opinião se forme. Topará com alguns impacientes que procurarão empurrar-te para diante: não lhes dês ouvidos. Veja, observa, sonda o terreno, dispõe-te a esperar e faze como o general cauteloso que não ataca, senão quando chega o momento favorável."
Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª Parte, "A minha primeira iniciação ao Espiritismo"

A vendagem da obra foi um sucesso. A Revista Espírita de dezembro de 1860 cita que a tiragem da segunda reimpressão esgotou-se em apenas quatro meses. Ela lançou uma luz sobre a efervescente discussão a respeito das modernas manifestações espirituais proliferadas desde meados daquele século XIX, rejeitadas sistematicamente pelas academias científicas e amaldiçoadas pelas igrejas. Diante desse quadro, em que se fazia necessário uma nova doutrina, que conciliasse os sentimentos religiosos e as verdades das ciências, Assim, O Livro dos Espíritos representa o marco inicial do Espiritismo, um portal para a Nova Era da Humanidade.

Por outro lado, também provocou reações adversas. Entre outras investidas contrárias, no episódio que ficou conhecido como o Auto de Fé de Barcelona, vários de seus exemplares, junto com outras obras espíritas, foram confiscados pelo bispo daquela cidade espanhola e queimados em praça pública, sob a alegação de serem perniciosos à fé católica. Em 1 de maio de 1864, esse livro foi inscrito no Index Librorum Prohibitorum — o catálogo católico de obras cuja leitura é proibida para os féis da Igreja.


Traduções

Não tardou para O Livro dos Espíritos ser traduzido para o inglês, pelo dedicado trabalho de Anna Blackwell, amiga do casal Kardec e importante correspondente inglesa da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Em seguida vieram as traduções para Espanhol, alemão e daí por diante, não demorando para igualmente chegar ao nosso português, o que se deu já em 1875, pelo médico fluminense Joaquim Carlos Travassos. Outras importantes traduções brasileiras foram empreendidas por Guillon Ribeiro (por muito tempo adotada a tradução oficial da Federação Espírita Brasileira), Salvador Getile, José Herculano Pires, Evandro Noleto Bezerra. A adaptação subintitulada Numa Linguagem Simplificada, por Louis Neilmoris, adapta a obra para um contexto linguístico moderno e do alcance popular.

Clique aqui para acessar a versão digital de O Livro dos Espíritos.


Estrutura da obra

A estrutura da obra está dividida em quatro seções básicas: introdução, prolegômenos, seção principal e conclusão. A seção principal, que é a que traz as questões enumeradas, é subdividida em quatro partes, obedecendo a uma classificação temática, como que fossem livros de assuntos específicos, mas que se correlacionem no contexto geral. A seguir, um breve esboço do conteúdo:

  • Introdução ao estudo da Doutrina Espírita: Kardec apresenta a nova doutrina e as suas designações, para as quais o codificador criou novas palavras (espiritismo, espírita, médium, perispírito). Faz um breve histórico dos fenômenos espirituais (da tiptologia na América para as Mesas Girantes na Europa) que resultaram na Revelação Espírita. Lista e explica rapidamente os princípios fundamentais do Espiritismo e comenta a respeito das críticas mais comuns contrárias ao Moderno Espiritualismo e, por conseguinte, à Doutrina Espírita. Portanto, trata-se de uma excelente exposição para os iniciantes.
  • Prolegômenos: espécie de prefácio, anuncia o lançamento da Doutrina dos Espíritos, transcreve uma mensagem espiritual assinada pelos principais Espíritos que colaboraram com aquelas revelações e também reproduz um desenho mediúnico de uma cepa, como representação do trabalho do Criador.


  • (Seção principal): é a parte da "entrevista com a espiritualidade". Traz as questões numeradas, num total de 1019. A maioria dessas questões constitui de uma pergunta, formuladas por Kardec, e a respectiva resposta.
    De padrão, as respostas publicadas são uma copilação de todas as opiniões que o autor colheu junto a diversos Espíritos. Então, por exemplo, sobre a primeira questão do livro — O que é Deus? — a resposta expressa — "A inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas" — não foi necessariamente a oração literal de uma ou outra entidade, mas a soma geral da ideia com a qual os Espíritos consultados concordavam a respeito da questão proposta. Porém, algumas delas são transcrições de comunicações diretas, assinadas pelos Espíritos que as responderam particularmente (na questão 1009, por exemplo, Santo Agostinho responde a pergunta formulada a respeito da ideia das penas eternas).
    Em diversas questões, Kardec acrescenta comentários às respectivas respostas (por exemplo, na questão 13, o autor comenta sobre os atributos da divindade sancionados pelos Espíritos).
    Em casos excepcionais, a questão não tem pergunta, nem comunicação espiritual, mas apenas dissertações do autor. A questão 222 é uma delas, ocupando todo um capítulo no qual Kardec discorre sobre a pluralidade das existências. Outra demonstração: a de número 872 é um "Resumo teórico da motivação das ações humanas".
    Essa seção está dividida em quatro partes, ordenados por temas específicos, a saber:
  • Conclusão: É uma feliz exortação àqueles que, cientes das revelações espirituais e animados pelo sentimento íntimo de progredir, se veem comprometidos com a Nova Era para a Humanidade que se inaugura com a Doutrina Espírita. O livro finaliza com a transcrição da seguinte mensagem do Espírito Santo Agostinho:
"Por muito tempo os homens se estraçalharam e se amaldiçoaram em nome de um Deus de paz e de misericórdia, ofendendo-o com semelhante sacrilégio. O Espiritismo é o laço que um dia os unirá, porque mostrará onde está a verdade e onde está o erro. Mas por muito tempo ainda haverá escribas e fariseus que o negarão, como negaram o Cristo. Querem saber sob a influência de que Espíritos estão as diversas seitas que dividiram entre si o mundo? Julguem-nas por suas obras e princípios. Nunca os bons Espíritos foram os instigadores do mal; nunca aconselharam nem legitimaram o assassinato e a violência; nunca excitaram os ódios dos partidos, nem a sede das riquezas e das honras, nem a avidez dos bens da Terra. Somente aqueles que são bons, humanos e benevolentes para com todos são seus preferidos e são também os preferidos de Jesus, porque seguem o caminho indicado para chegar até ele."
Santo Agostinho, O Livro dos Espíritos - Conclusão, item 9

Essa eficiente distribuição permite tanto uma leitura linear, quanto facilita a pesquisa e o estudo dos temas particulares. Esse formato didático, que tão bem distribuiu a coleção de tantos assuntos complexos, comprova a exuberante capacidade de Allan Kardec, herança de seu currículo profissional no ramo da Pedagogia.


Links





© 2014 - Todos os Direitos Reservados à Fraternidade Luz Espírita

▲ Topo