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Índice de verbetes



Religião



Religião, na acepção mais comum, é uma crença fundamentada na existência de um princípio superior, extra-humano (dito sobrenatural), do qual a humanidade depende, bem como é o conjunto de elementos correspondentes a essa crença, por exemplo, suas leis de conduta moral, sacramentos, liturgia, culto, símbolos, consagração e hierarquia sacerdotal etc. Para a Doutrina Espírita, religião é um canal de ligação íntima entre cada indivíduo para com Deus e a espiritualidade, livre de quaisquer formalidades, rituais e exibições exteriores.



Etimologia

O termo religião é o aportuguesamento do latim religìo,ónis, equivalente a "culto religioso, práticas religiosas", que, por sua vez, tem várias raízes etimológicas, de forma a ocasionar divergências sobre o seu significado elementar e até mesmo a não permitir que se estabeleça um consenso acerca de uma definição pura.

A interpretação mais difundida no Ocidente é a proposta por Lactâncio (que viveu entre 240 e 320), o conselheiro do imperador Constantino I, segundo a qual religião vem do latim religare, que quer dizer "atar, ligar, manter ligação, religar". Segundo Lactâncio, religião é o laço concedido pela piedade divina para religar a Humanidade e a Deus, após o pecado original de Adão e Eva, do qual todos nós seriamos herdeiros. Anteriormente, Cícero (político e escritor da Roma Antiga que viveu entre 106 a.C. - 43 a.C.) havia proposto que religião vinha de relegere, "reler", em alusão à característica dos religiosos de ler e reler os textos sagrados de suas crenças e as aceitarem literalmente. Adiante, o filósofo romano Macróbio (século V) propôs que religião se origina de relinquere, condizente com "aquilo que restou ou foi deixado pelos antepassados". Inicialmente, Santo Agostinho (século IV) interpretou religião conforme o termo latim religere, "reeleger", conotando que a religião seria a manifestação humana de novamente eleger Deus como o seu Ser Supremo, do qual ela havia se separado pelo pecado. Posteriormente, o teólogo consagra a versão de Lactâncio (religião = religare) e influencia o pensamento cristão a essa vertente.

A partir daí, fundou-se a ideia clássica de que religião é um sistema doutrinário, com seus dogmas, rituais, cultos etc., normalmente fundado a partir de uma revelação divina, e intimamente ligado a um corpo institucional (a igreja ouequivalente) hierarquizado por autoridades consagradas (eclesiásticos, clero, profetas etc.) que interpretam as revelações e conduz os seus fieis religiosos. Portanto, nesse sentido, a prática religiosa fica intrinsecamente ligada aos moldes doutrinários (as regras religiosas), à instituição (templo, igreja, sinagoga, mesquita etc.) e aos seus guias espirituais (papa, bispo, rabino, pastor, aiatolás, mahatma etc.). Este é um modelo heteronômico, em que o fiel vê-se necessário de se agregar a um determinado sistema religioso e seguir as determinações dessa heteronomia (sujeição a uma ordem exterior). Então aí observamos a palavra religião ser empregada como sinônimo de denominação religiosa (religião católica, religião hindu etc.)..

Relacionado a essa mesma matéria está o conceito de seita. Tradicionalmente, considera-se seita uma dissidência de uma religião, que nasce de uma controvérsia doutrinária e gera então uma nova doutrina, mais ou menos similar à original, e que, pelas disparidades estabelecidas, vê-se na necessidade de proclamar-se uma nova denominação religiosa. A imputação do termo seita é feita classicamente no sentido pejorativo, como designação de "religião pequena", e os sectários são comumente visto como desertores de uma fé.

Ver Seita.


Religião segundo Kardec; Espiritismo é uma religião?

Nos tempos de Allan Kardec, o significado usual de religião era exatamente o de que se tratava de um feixe que ligava religiosidade a uma doutrina dogmatizada, instituição hierarquizada, liturgia, símbolos e coisas afins. É tomando esse modelo vulgar que o codificador espírita, Allan Kardec, vai dizer prontamente que o Espiritismo não é uma religião constituída.

"O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que necessariamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote. Estes qualificativos são de pura invenção da crítica."
Allan Kardec, Obras Póstumas - 1ª Parte: "Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo"

Ao mesmo tempo, o pioneiro espírita propõe um significado especial para a palavra religião — ou o resgate do que seria a sua verdadeira acepção:

"Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção larga e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças."
Allan Kardec, Revista Espírita, Dez. de 1868 - "Sessão comemorativa do dia dos mortos: Discurso de abertura"


Sob sua ótica, em suma, trata-se de um envolvimento espiritual diretamente entre a humanidade e as potências divinas, modelo esse caracterizado por religião natural — conforme o movimento conhecido como Espiritualismo Racional e bem transitado no meio acadêmico francês nos tempos do Codificador Espírita. É um modelo de religiosidade autônoma, oposto ao padrão heteronômico das religiões tradicionais, cuja essência fica emblemática na máxima kardequiana Fora da Caridade não há salvação, em resposta ao apelo de autoridades católicas que reinvindicavam "Fora da Igreja não há salvação".

No entanto, como Kardec verificou duas ideias distintas (uma, a do modelo usual de religião tradicional, e outra, a da "religião natural") associadas à mesma palavra, viu-se na dificuldade de definir, de modo satisfatório, se o Espiritismo seria ou não uma religião.

"Se é assim, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.
Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Em razão de não haver senão uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou."
Allan Kardec, idem

Ou seja, se considerarmos religião no sentido de "religião natural", o Espiritismo não apenas é uma religião, mas é também a mais pura de todas, pois se funda em tudo o que é da natureza e dispensa tudo quanto for material, místico e mera formalidade. Logo, ou o Espiritismo esta em acordo com o que seria a concepção elementar de religião, ou, caso não seja essa a verdadeira e a pura conceituação de religião, o Espiritismo seria um novo modelo religioso.

"(...) o Espiritismo repousa sobre as bases fundamentais da religião e respeita todas as crenças; que um de seus efeitos é incutir sentimentos religiosos naqueles que não os possuem, fortalecê-los nos que os tenham vacilantes."
Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, - 1ª Parte, cap. 3, item 24

Todavia, para aqueles que não concebem a ideia de religião sem os vínculos convencionais típicos das religiões tradicionais, então o Espiritismo definitivamente não tem semelhança com uma corrente religiosa.

Vê-se, portanto, que esta não é uma pergunta que se responda simplesmente com um "sim" ou com um "não". E, com efeito, essa definição (se o Espiritismo é uma religião) não é o ponto fundamental: o mais imporante é pensarmos como a Doutrina Espírita interpreta o conceito de religiosidade, ou seja, o efeito prático da crença no comportamento dos indivíduos. Nesse sentido é que Kardec vai dizer que toda religião que torna o homem melhor é, de fato, uma religião positiva e, por conseguinte, qualquer doutrina — por mais bela e justa que seja — que deixe de promover o bem comum entre os homens não tem validade prática.

Ver: Espiritualismo Racional.


Desenvolvimento religioso

O desenvolvimento das expressões religiosas na Terra se confunde com o próprio desenvolvimento da Humanidade terrena, e também está um tanto atrelado às expressões culturais e folclóricas dos povos, cuja origem se perde no inconsciente da nossa História.

Antropólogos em geral creem que os humanos mais primitivos desenvolveram a crença num poder sobrenatural e na existência de potências inteligentes (divindades e afins) a partir da observação dos astros e seus fenômenos, visto que eles estavam no alto, muito fora do alcance dos homens. Dessa crença e respeito por essas potências nasceu o interesse e o gosto pelos cultos de louvor e gratidão pela vida e pelos recursos de sobrevivência extraídos da Natureza. Eis, pois, a forma original da "religião natural".

Porém, a questão 221 de O Livro dos Espíritos nos sugere que, antes mesmo dessa observação dos fenômenos dos corpos celestes, mesmo os mais selvagens já conservavam em si uma espécie de crença instintiva da existência de Deus e o pressentimento da vida espiritual. De qualquer forma, presente no homem esse sentimento de na espiritualidade, naturalmente esta o impulsionaria a uma prática religiosa, que então vai aflorar de variadas formas, em acordo com as tradições culturais dos mais variados povos espalhados no globo terreno.

Podemos pensar então que da mescla do sentimento religioso primitivo com as manifestações culturais de cada gente é que se formaram as primeiras liturgias, adornadas de elementos como rituais de oblação, sacrifícios, símbolos sagrados, dança e música etc. Em seguida, não tardaria para que surgissem os primeiros corpos doutrinários, com seus ensinamentos, regras de conduta e especulações sobre a origem das coisas e organização das forças naturais. Nesse particular, observamos a tendência natural dos nossos antepassados pelas ideias fantásticas e suposições maravilhosas para explicar os mais simples fenômenos da Natureza, donde brotou a riqueza artística das mitologias antigas.

"No começo, todas as religiões tiveram de ser relativas ao grau de adiantamento moral e intelectual dos homens: sendo estes, materializados demais para compreenderem o mérito das coisas puramente espirituais, atribuíram a maior parte dos deveres religiosos ao cumprimento de fórmulas exteriores. Por muito tempo essas fórmulas satisfizeram a razão deles; porém mais tarde — porque a luz se fez em seu espírito e sentindo o vácuo dessas fórmulas — uma vez que a religião não o preenchia, abandonaram-na e se tornaram filósofos."
Allan Kardec, O Céu e o Inferno - 1ª Parte, Cap. I, item 12

Acompanhando o desabrochar das capacidades intelectivas dos homens, sabemos da contribuição gradativa da espiritualidade no desenvolvimento religioso das sucessivas gerações, desde a simples mensagem intuitiva até os fenômenos mediúnicos mais completos; debruçados nessa contribuição espiritual, alcançamos os primeiros sinais mais exuberantes dessa canalização ao nos remetermos ao tempo dos iniciados egípcios, dos oráculos gregos e do profetismo judeu, que culminou na primeira grande revelação divina, a revelação mosaica — que consagrou o monoteísmo (a ideia de uma só divindade, suprema diante de tudo e de todos) —, passando pela segunda grande revelação, personificada em Jesus Cristo — que veio revelar a fraternidade universal e a excelência da lei de amor —, que atualmente se completa com a Terceira Revelação, cuja síntese está representada no Espiritismo.

O modo como os povos vêm absorvendo os ensinamentos espirituais é causa frequente de controvérsias, cujos flagrantes mais eloquentes são notados nas disputas ideológicas acerca das doutrinas mais preponderantes, e, pior, nos conflitos bélicos travados sob o pretexto da defesa dos valores sagrados — as chamadas "guerras santas".

De fato, historiadores e demais pesquisadores das ciências humanas são enfáticos em afirmar que o princípio religioso tem sido usado em tempos e lugares diversos como instrumento de manobra ideológica, basicamente fundamentada em interpretações fanatizadas — aureoladas pelo misticismo e pela ignorância —, e de exploração das massas, cujos objetivos mais triviais orbitam em torno de dominação material, contra o que a codificação espírita vem alertar.

"O objetivo da religião é conduzir o homem a Deus. Ora, este não chega a Deus senão quando se torna perfeito. Logo, toda religião que não torna o homem melhor não alcança o seu objetivo. Toda aquela em que o homem julgue poder se apoiar para fazer o mal ou é falsa ou está falsificada em seu princípio. Tal o resultado que dão aquelas em que a forma sobreleva ao fundo. A crença na eficácia dos sinais exteriores é nula se não impedem a que se cometam assassínios, adultérios, espoliações, que se levantem calúnias, que se causem danos ao próximo, seja no que for. Semelhantes religiões fazem supersticiosos, hipócritas, fanáticos; mas não homens de bem."
Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo - Cap. VIII, item 11

"O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra. Ele reformará a legislação ainda tão frequentemente contrária às leis divinas; retificará os erros da História; restaurará a religião do Cristo, que nas mãos dos padres se tornou objeto de comércio e de tráfico vil; instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma batina, ou nos degraus de um altar. Extinguirá para sempre o ateísmo e o materialismo, aos quais alguns homens foram levados pelos incessantes abusos dos que se dizem ministros de Deus, pregam a caridade com uma espada em cada mão, sacrificam às suas ambições e ao espírito de dominação os mais sagrados direitos da Humanidade."
Um Espírito, Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª Parte, "Futuro do Espiritismo"


Manifestações religiosas

Há diversas formas de se manifestar uma religiosidade, em conformidade com a crença íntima de cada qual.

Pelas tradições orientais mais antigas, em que se conserva a ideia de religião natural, a meditação pura — despojada de formalidades ou mesmo conceitos doutrinários — é a expressão única e necessária, servindo de canalização para a mente "tocar", inconscientemente, as forças superioras (a natureza, divindades, potências impessoais etc.), alimentando-se dela, meramente como os nossos pulmões se nutrem do oxigênio. Para seus adeptos, não há necessidade de conhecimento transcendental algum, nem de uma doutrina exata que defina a religião, nem as forças espirituais etc. Basta a meditação. Tudo o mais se resume em cada qual seguir sua consciência, que é mais ou menos correta de acordo com a sua capacidade de mergulhar na meditação e de "tocar" mais profundamente nessas forças do além. Muitos desses religiosos dizem que não apenas não há por que entender e explicar o seu sentimento religioso, mas também que isso não seja viável, por considerarem que isso é algo inalcançável para o homem.

Entretanto, o mais comum é que as crenças se desenvolvam e adquiram seus conceitos particulares — normalmente, formulados a base de alegadas revelações espirituais — e regras de conduta para os seus fieis, notadamente onde as ditas autoridades religiosas exercem certa influência sobre a sua comunidade civil — quando não, eles mesmos são as autoridades do Estado. É nesse contexto que a religião sai da intimidade de um indivíduo para formar uma coletividade, uma instituição, com um corpo doutrinário, algumas vezes recheada de ornamentos, como símbolos sagrados, paramentos, liturgia, rituais, sacrifícios etc. É quando a fé deixa de ser um sentimento para se tornar uma espécie de segmento partidário, donde se diz que alguém professa essa ou aquela fé (religião).

Em consequência desse tipo de manifestação religiosa, temos atualmente inúmeras denominações religiosas organizadas, sendo as cinco mais relevantes: Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, sendo que dentre este último se encontram segmentos diversos, como o Catolicismo, o Protestantismo, Adventismo, Mormorismo, Igreja Ortodoxa, dentre outros. Uma questão especial, nesse particular, é a aceitação ou não do Espiritismo dentro das religiões cristãs.

Ver: Cristão.

Convém ainda levarmos em consideração o movimento científico conhecido como Espiritualismo Racional emergente no começo do século XIX, também servindo de precursor para a Doutrina Espírita. Trata-se de um esforço de pensadores acadêmicos que propunham estudar a moral e os efeitos da espiritualidade isentos da superstição e fanatismo religioso, resgatando assim o conceito original da religião natural.


Caráter religioso do Espiritismo

Como é evidente, o Espiritismo não é uma religião constituída, nos moldes das religiões tradicionais, mas traz em seus fundamentos conceitos convergentes com as ideias religiosas comuns, o que faz com que sua doutrina tenha consequências práticas de uma religião, por exemplo, pelo exercício da prece, a comunhão positiva de pensamentos e vibrações, porque o objetivo primordial da Doutrina Espírita é promover a evolução espiritual dos indivíduos, em conjunto com a fraternidade universal e com Deus.

"Qual é então o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras palavras: o amor do próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos sempre fazem parte da Humanidade."
Allan Kardec, Revista Espírita, dez. de 1868 - "Sessão comemorativa do dia dos mortos: Discurso de abertura"


Desvencilhando-se de concepções místicas, de formalidades litúrgicas, de apetrechos físicos, simbologia e rituais externos, típicos das religiões tradicionais, o caráter religioso espírita se concentra nas ligações afetivas e emocionais, nas manifestações dos indivíduos em gratidão a Deus e no fortalecimento da solidariedade para com os semelhantes. Nesse sentido é que o Espírito Emmanuel vai definir religião:

"Religião é o sentimento Divino, cujas exteriorizações são sempre o Amor, nas expressões mais sublimes. Enquanto a Ciência e a Filosofia operam o trabalho da experimentação e do raciocínio, a Religião edifica e ilumina os sentimentos."
O Consolador, (Emmanuel) Chico Xavier - Questão 260


Religião versus Ciência

No decorrer histórico da Humanidade, estabeleceu-se, de maneira geral, quase que de forma irreparável, um antagonismo prático entre religião e ciência. A razão capital é que as religiões tradicionais se alicerçaram sobre conceitos místicos e quase sempre negaram o valor das capacidades intelectivas humanas na compreensão da Natureza espiritual, enquanto que as ciências se fundam em conceitos racionais e, por sua vez, negam qualquer sondagem do que eles classificam como sobrenatural. No entanto, por trás dessa cortina teórica ou ideológica que separa as duas correntes, o que muitos especialistas verificam mais precisamente é um jogo de interesses particulares de ambos os lados, em detrimento do desenvolvimento tanto da ciência quanto das religiões.

Por observar esse conflito de interesses, Kardec vai salientar o prejuízo no andamento da espiritualização da Humanidade.

"Se a religião — a princípio apropriada aos conhecimentos limitados do homem — tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do pensamento humano, não haveria incrédulos, porque a necessidade de crer está na própria natureza do homem, e ele terá fé desde que lhe seja dado o sustento espiritual de harmonia com as suas necessidades intelectuais."
Allan Kardec, O Céu e o Inferno - 1ª Parte, cap. I, item 13

O Espiritismo atesta a Lei de Evolução, pela qual os indivíduos desenvolvem suas capacidades morais e intelectivas, que o tornam paulatinamente aptos a penetrar na ciência espiritual e, por conseguinte, no entendimento da essência divina. Ao lado desse desenvolvimento, Deus e a espiritualidade vão se revelando aos homens, fazendo-o penetrar cada vez mais profundamente na natureza do mundo dos Espíritos, tal como têm feito as revelações espíritas. Desta feita, Kardec propõe que o Espiritismo seja o laço entre a religião e a ciência, para que elas, juntas, contribuam com o progresso humano. Seguindo os preceitos da razão, tal como uma ciência, ele vem alargar o horizonte cientifico ao lhe apresentar de uma nova maneira a natureza espiritual e sua correlação com o nosso mundo físico — não de forma mística, mas filosófica e racional. Essa junção de forças é que fará com que todos convirjam para a unificação espontânea de todas as crenças.

"Instintivamente o homem tem a crença no futuro, mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou as teorias que provocam a diversidade de crenças. A Doutrina Espírita — não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista — atrairá as opiniões divergentes ou indecisas, no futuro, como já está acontecendo, e pela força das coisas trará gradualmente a unidade de crenças sobre esse ponto, não já baseada em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contato dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão."
Allan Kardec, O Céu e o Inferno - 1ª Parte, cap. I, item 14


Materialismo, ateísmo e incredulidade

Embora o sentimento religioso seja inato no homem, constata-se a existência de outras ideias indo de encontro à religião — seja simplesmente para negá-la, seja como um movimento reacionário que visa combatê-la, cuja ferocidade, em alguns casos, se iguala aos mais extremistas fanáticos religiosos.

No meio científico moderno, especialmente no século XVII, surgiram varias teses indo ao encontro da ideia do materialismo (que, em suma, propõe que a vida orgânica, a alma humana e todas as manifestações inteligentes são apenas fenômenos materiais), portanto, uma completa negação de qualquer coisa espiritual, de Deus ou qualquer natureza transcendental.

No sentido mais exato, o materialismo científico não pode ser precipitadamente entendido como uma negação, propriamente dita, da existência de Deus e da espiritualidade; os cientistas mais honestos vão dizer que isso não é um "problema da ciência", pois que esta se limite ao universo material e, portanto, não alcança aquilo que é transcendental. A ciência simplesmente não pode nem atestar e nem negar a divindade e a espiritualidade, mas pode explorar os ditos fenômenos espirituais que repercute na nossa dimensão física — e o faz, por exemplo, desmistificando os sugeridos milagres ou até mesmo se calando diante de manifestações que ela não consegue explicar por seus métodos materiais.

A partir das teses materialistas acadêmicas, muitas ideias não-religiosas ganharam vida e formaram até movimentos organizados para lutar contra as crenças religiosas, por exemplo a Aliança Ateia Internacional, com sede em Washington D.C. (EUA). Comumente, isso tudo é chamado de ateísmo — o que não é exato. Ateísmo vem de atheos, do grego "sem deus", ou seja, ideia de não existência de uma individualidade soberana, um ser onipotente, tal como se diz de Deus. No entanto, isso não implica necessariamente em desacreditar na imortalidade da alma e na vida espiritual; certas correntes religiosas, como o hinduísmo tradicional, creem na espiritualidade, na reencarnação e em outros tantos conceitos religiosos, porém não admitem a existência de uma divindade; para estes, a ideia mais próxima de Deus é o que normalmente se entende por "mãe natureza" — espécie de força impessoal.

Ver Ateísmo.

Fora o materialismo científico, também se verifica a existência da incredulidade, daqueles que, sem nem se basear em qualquer explicação lógica para a origem e organização do Universo, professam a sua descrença — quase que como uma crença — e, por extensão — uma antipatia pelas religiões e por toda e qualquer ideia espiritualista. A razão mais comum para se explicar o porquê dessas veementes negações e antipatias é o sentimento de revolta dos incrédulos contra o legado nefasto deixado pelas dominações religiosas ao longo da História, dentre as quais, um modelo teológico totalmente irracional e incompatível com a ideia de um Deus completamente justo, todo-poderoso, sábio e ao mesmo tempo bom para com todos. De fato, os conceitos místicos e os dogmas irracionais das religiões tradicionais têm produzido mais ou fanáticos ou incrédulos.

Atento a esses danos, Allan Kardec vem nos alertar dos perigos da incredulidade — que é muito íntima do desejo de se gozar livremente dos prazeres materiais, em detrimento dos compromissos espirituais — e, em contrapartida, oferecer a racionalidade da nova fé que professa, a Doutrina Espírita, que resgata o sentimento da religião natural, em aliança com o conhecimento científica e a experimentação sensorial da espiritualidade através do canal mediúnico, tendo como um de seus objetivos primordiais o de combater o materialismo e a incredulidade.

De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?
"Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz que os homens compreendam onde se encontram seus verdadeiros interesses. Quando a vida futura deixar de estar velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que é capaz de preparar o seu futuro por meio do presente. Eliminando os prejuízos de seitas, castas e cores, ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos."
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - questão 779


Referências

  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec (ler online).
  • Obras Póstumas, Allan Kardec (ler online).
  • Revista Espírita, dezembro de 1868, Allan Kardec
  • O Livro dos Médiuns, Allan Kardec (ler online).
  • O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec (ler online).
  • O Consolador, (Emmanuel) Chico Xavier (ler online).
  • Revolução Espírita, Paulo Henrique de Figueiredo.




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