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Índice de verbetes



Revelação Espírita



Chama-se Revelação Espírita o conjunto teórico de informações de caráter científico e ensinamentos de caráter filosófico e moral provindos da interação entre os Espíritos desencarnados e a Humanidade, da qual resultou o Espiritismo, ou Doutrina Espírita. Por vezes é chamada "Terceira Revelação", em complemento às duas grandes revelações que a antecederam: a primeira, com Moisés, que diz respeito ao monoteísmo, à onipotência de Deus e à consagração dos Dez Mandamentos; a segunda, com Jesus, anunciando a vida futura, a fraternidade universal e o mandamento do amor incondicional a Deus e ao próximo. Também é chamada de "O Consolador Prometido", em referência à predição feita pelo Cristo, de que Deus enviaria o seu "paráclito" (o Espiritismo, ou seja, a própria Revelação Espírita).

Os princípios fundamentais da Revelação Espírita são aqueles propostos na Codificação Espírita, compliada por Allan Kardec. Mas, de certa maneira, a Revelação Espírita é o próprio Espiritismo em desenvolvimento, pois que essa doutrina tem o caráter progressivo e está constantemente revelando seus conceitos — tanto pela contribuição das entidades espirituais, quanto pela contribuição dos espíritas encarnados, através de seus estudos e pesquisas acerca do intercâmbio mediúnico e da observação científica e filosófica —, tendo como fundamento básico a universalidade da revelação e da comprovação (quando um mesmo fato é verificado em diferentes diversos lugares, por diversas fontes).


Características da revelação

Em sentido próprio, revelar (em latim revelare, da raiz velum) significa sair do véu, equivalente a descobrir, retirar o véu (aquilo que encobre e esconde) e mostrar o que estava oculto ou que era ignorado, desconhecido. Nesse ponto, toda invenção ou criação é uma revelação, posto que, de alguma forma, já existia e apenas era ignorada. Assim foi que, por exemplo, a Física nos revelou certas leis da natureza material. Portanto, as ciências e as filosofias são igualmente fontes de revelação, assim como os Espíritos — que nos revelam as características do mundo espiritual.

Em consequência dessa definição, uma revelação só é autêntica quando aquilo que se propõe revelar é verdadeiro. Decorre daí que pode haver então uma falsa revelação (incosciente ou proposital) ou mesmo uma interpretação imperfeita de uma revelação verdadeira.

O propósito principal do Espiritismo é contribuir com o avanço da Humanidade exatamente pelas revelações das leis espirituais que regem o Universo, pois, de posse do conhecimento dessas leis, melhor podemos trilhar nosso curso evolutivo.


As revelações espirituais e as religiões

O conjunto harmônico da Natureza, criado por Deus, estabelece a necessidade de a espiritualidade contribuir com o desenvolvimento da Humanidade através das revelações espirituais, pela razão de que os homens são incapazes de penetrar nos conhecimentos superiores por si mesmos. Essas revelações se processam cada vez mais frequente e evidente à medida que os homens se qualificam para compreendê-las. Assim é que, desde os primórdios da vida humana na Terra, os Espíritos se manifestam e fazem suas revelações. Foram dessas manifestações que surgiram os mais variados cultos religiosos e tradições culturais, cada povo as interpretando a seu modo.

Na Antiguidade, os Espíritos que se manifestavam eram aceitos como divindades, potências da natureza e protetores pessoais (os daimónios, daemon ou gênios). As mensagens recebidas eram chamadas de oráculos e as pessoas que as recebiam (geralmente mulheres) chamavam-se pitonisas, bruxas, feiticeiras, etc. Na crença judaica, é o próprio Deus quem se manifesta; os seus portadores são conhecidos como profetas e suas profecias são tomadas como verdades absolutas (dogmas).

A Doutrina Espírita é fruto da revelação dos Espíritos, sem a qual não haveria Espiritismo, mas também do labor intelectual dos seus praticantes. Nela, todas as revelações e ensinamentos devem ser rigorosamente analisados pelo crivo da lógica e da razão, para então serem admitidos ou rejeitados.

As revelações dos Espíritos — aqueles verdadeiramente encarregados de transmitir os desígnios superiores — visam o progresso da Humanidade e acompanham as necessidades de cada povo, no devido tempo. Tratam daquilo que realmente os homens carecem e são incapazes de alcançar sem uma intervenção espiritual, pois os Espíritos não devem isentar o homem do trabalho que lhe cabe.

"Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o fato de sua origem ser de Deus e da iniciativa dos Espíritos, sendo que a sua elaboração é fruto do trabalho do homem."
Allan Kardec - A Gênese: Cap. I, "Caráter da Revelação Espírita", item 13



Histórico e desenvolvimento

Em semelhança com o próprio Espiritismo, a Revelação Espírita teve início com o estabelecimento dos princípios básicos da Doutrina Espírita através das obras de Allan Kardec.

Ao tomar conhecimento das excepcionais manifestações espirituais conhecidas como Mesas Girantes, Kardec deliberou a si mesmo investigar as causas e os efeitos daqueles fenômenos, obedecendo aos critérios científicos, a fim de compreender racionalmente aquelas estranhas manifestações que, por parecerem contrárias às leis físicas de então, eram consideradas sobrenaturais. Portanto, os conceitos básicos do Espiritismo foram elaborados por Allan Kardec (eis porque às vezes se diz Codificação Kardequiana, Doutrina Kardecista, ou mesmo Kardecismo), que se baseou pelas seguintes fontes:

  1. Sua própria observação dos extraordinários fenômenos espirituais correntes em seu tempo (meados de século XIX);
  2. Mensagens espirituais endereçadas diretamente a ele, através de médiuns colaboradores;
  3. Correspondência com outros pesquisadores e médiuns, de diversas partes do mundo.

Já depois de algum tempo de estudo e pesquisa, participando ativamente de várias sessões espirituais, observando os fenômenos e entrevistando os Espíritos que se manifestavam através de vários médiuns, Kardec recebeu a revelação de seu guia espiritual da missão a que ele havia se prontificado para esta encarnação, qual seja: reunir, compilar e publicar a Revelação Espírita, que se efetivou com o lançamento do Espiritismo, ou Doutrina Espírita, cujo marco inicial é 18 de abril de 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos.

"(…) a missão dos reformadores é repleta de escolhos e perigos. Previno-te de que a tua é rude, porque se trata de abalar e transformar o mundo inteiro.
"Não suponha que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficar tranquilamente em casa. Tem que expor a tua pessoa. Provocará contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; verá a si próprio de braços dados com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez cairás sob o peso da fadiga; ou seja: terá de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viveria muito mais tempo. Ora bem! Muitos recuam quando, em vez de uma estrada florida, só veem sob os passos espinhos, pedras agudas e serpentes. Para tais missões, não basta a inteligência. Primeiramente, para agradar a Deus, é necessário humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.
"Veja, assim, que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti."
Espírito Verdade, Obras Póstumas, Allan Kardec - "A minha primeira iniciação no Espiritismo"

Formado em Ciências Gerais e com espírito de cientista, o codificador aplicou a seus estudos e pesquisas acerca da nova revelação o mesmo método experimental aplicável às ciências convencionais, sem ideias preconcebidas, extraindo a causa e os efeitos dos fenômenos através da dedução racional e encadeamento lógico dos fatos, considerando especialmente as leis da Física, Química e do Magnetismo — de que particularmente era estudioso.

Para levar a efeito tão grandioso trabalho, Kardec serviu-se da colaboração de uma plêiade de Espíritos, dentre os quais Sócrates, Santo Agostinho, São Luís, Fénelon, Erasto, Emmanuel, Lacordaire e, em particular, aquele que se denominou Espírito Verdade.

Ver História do Espiritismo.

Porém, o Espiritismo não se encerra em Kardec, apenas começa com ele. Em se tratando de uma doutrina com característica científica, a Revelação Espírita se desenvolve continuamente na proporção em que os Espíritos prosseguem se manifestando e os pesquisadores espíritas prosseguem com suas análises das comunicações, em conjunto com as descobertas das ciências convencionais.

"Caminhando ao lado do progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará."
Allan Kardec - A Gênese: Cap. I, "Caráter da Revelação Espírita", item 55



As manifestações espirituais e a revelação

A mediunidade é um dos instrumentos fundamentais para as revelações divinas à Humanidade e, consequentemente para o Espiritismo, pelo qual Deus e seus mensageiros espirituais anunciam aos homens as coisas superiores, abrindo assim uma janela para o Mundo dos Espíritos.

As manifestações físicas chocam as inteligências com seus fenômenos extraordinários (por exemplo, levitação e transporte de objetos, aparições e materialização espiritual, curas etc.), que desafiam as leis das ciências convencionais e despertam a curiosidade para a natureza espiritual. Por sua vez, as manifestações inteligentes (mensagens, clarividência, predições etc.) são meios diretos para os homens se instruírem a respeito das coisas superioras.

Contudo, considerando a grau de instrução e o livre-arbítrio dos envolvidos — dos Espíritos que se manifestam e dos médiuns por quem eles se manifestam —, nem toda comunicação mediúnica pode ser prontamente admitida como uma revelação, visto que seus comunicantes podem estar enganados quanto ao que comunicam ou podem estar agindo de má-fé, ou as suas comunicações podem ser mal interpretadas ou falseadas pelos médiuns que as receberam.


Controle universal do ensino dos Espíritos

Como o Espiritismo não é um organismo constituído formalmente, a ponto de haver decretos oficiais que regularize seus conceitos, o controle das revelações espíritas se dá de forma indireta, observando o princípio da universalidade do ensino dos Espíritos e da comprovação concreta. Portanto, para saber-se da autenticidade ou falsidade de uma determinada revelação ou ensinamento, é preciso observação e análise racional de seus efeitos, considerando que os desígnios superiores são disseminados por vários pontos, jamais provindos de uma só entidade espiritual e nunca transmitidos em exclusividade a um único receptor (médium).


O Consolador Prometido

Bem como o próprio Espiritismo, a Revelação Espírita é chamada de "O Consolador Prometido" em menção à promessa feita por Jesus, conforme os textos bíblicos: "Muitas das coisas que digo vocês ainda não compreendem e teria a dizer muitas outras que não compreenderiam; por isso é que lhes falo por parábolas; mais tarde, porém, enviarei a vocês o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e lhes explicará tudo." (João, 14,16; e Mateus, 17).

Compreendemos assim que o Cristo não pôde revelar todas as coisas, em razão da incapacidade daquela geração, e então seria preciso uma nova revelação, para complementar seus ensinos, e, inclusive, para "reparar" as falsas interpretações daquilo já revelado.

A essa nova revelação Jesus chama de "paráclito", do grego parákletos, que significa consolador, advogado, guia: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." (João, 14:16­17); "Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim." (João, 15:26); "Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo­lo enviarei. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar­vos-á as coisas que virão." (João, 16:7 e 13)

Desta maneira, compreendemos que o Consolador não se trata de uma pessoa, pois que virá para ficar eternamente. É o Espírita da Verdade, que não é deste mundo, ou seja, que não é em forma material. É então o intercâmbio mediúnico, pelo qual Espíritos e almas encarnadas se confraternizam e mutuamente trabalham para a evolução do mundo, intercâmbio esse previsto nesta outra passagem bíblica: "Acontecerá nos últimos dias — é Deus quem fala — que derramarei do meu Espírito sobre todo ser vivo: profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas. Os vossos jovens terão visões, e os vossos anciãos sonharão." (Atos dos Apóstolos, 2:17)

Veja o verbete Consolador.


Terceira Revelação

A exemplo da Revelação Espírita, o Espiritismo também é chamado de "Terceira Revelação" em referência ao que consideramos as três grandes revelações de espiritualidade para com a Humanidade, a saber:

Na primeira, Deus é revelado como o Onipotente, o Único e Supremo Soberano, Criador de tudo e de todos. Essa primeira revelação está personificada em Moisés, porque foi ele o escolhido para conduzir o povo judeu à nova era: a era do monoteísmo (ideia de uma só divindade), em resposta ao politeísmo (ideia de existência de vários deuses), tão comum na Antiguidade. Junte-se a isso a revelação do Decálogo, ou seja, os Dez Mandamentos da Lei de Deus.

A segunda grande revelação foi feita por Jesus, que consiste especialmente em três ensinamentos revolucionários: 1) o anúncio da vida futura (os judeus não tinham ideia clara do destino das almas pós-morte); 2) a fraternidade universal, em que todos somos filhos de Deus e irmãos uns dos outros (os judeus monopolizavam sua divindade, acreditando que eles fossem o único povo eleito por Deus); 3) o mandamento de amor incondicional, tanto ao Pai quanto ao próximo (Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo).

Restaurando o verdadeiro significado dos ensinos de Jesus (muitas vezes tão mal interpretados e praticados pelas religiões), demonstrando novas coisas (por exemplo, detalhes da vida espiritual), consolando aqueles bem-aventurados descritos pelo Cristo (os pobres de espírito, os brandos e pacíficos, os humildes, os que têm sede de justiça, etc.) e reatando os laços com a Ciência (outrora amaldiçoada pelos religiosos), a Revelação Espírita então cumpre os requisitos do Consolador prometido e se apresenta como a Terceira Revelação. Ela não está personificada em ninguém — nem do plano espiritual, nem da dimensão física —, porque são vários os Espíritos comunicantes e vários médiuns receptores da mensagem espiritual, e se faz presente em toda a parte, através desse intercâmbio mediúnico, com o qual a Humanidade tem a extraordinária oportunidade de avançar no seu curso evolutivo.

"O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo, por meio de provas irrecusáveis. Ele nos mostra a espiritualidade, não mais como coisa sobrenatural, mas ao contrário, como uma das forças vivas e sempre atuantes da Natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, jogados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo menciona em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que ele disse permaneceu incompreendido ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil."
Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo- cap. I, item 5

Ver Terceira Revelação.


Referências

  • A Gênese, Allan Kardec - especialmente: cap. I: "Caráter da Revelação Espírita".
  • Obras Póstumas, Allan Kardec - especialmente 2ª Parte.
  • O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - especialmente cap. I: "Não vim destruuir a lie" e cap. VI: "O Cristo Consolador".




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