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Capítulos:



Cap. 4 - O resgate de Ícaro


Naquela noite eu havia tido alguns sonhos com a irmã Madalena e com o irmão Miguel, em que nós procurávamos estender as mãos para alcançar alguém que estava em um lugar fundo e escuro.

Percebi que havia algumas pessoas desencarnadas lá, gritando de dentro daquele buraco com ensurdecedoras palavras de dor e agonia.

Quando finalmente consegui segurar as mãos de alguém e que as puxei para cima, eu pude perceber que a pessoa a quem eu havia ajudado era Ícaro. Neste momento senti seu olhar raivoso, como quem, ao contrário de aceitar a minha ajuda, quisesse me puxar para dentro do buraco.

— Acorde, Cesar! Está tudo bem!

— Irmã Madalena, eu estava...

— Eu sei, Cesar, estávamos lá, lembra?

— Então o que aconteceu foi real?

— Mais real do que podes supor.

— Pensei que fosse um sonho...

— Os sonhos são simplesmente um retorno temporário ao plano espiritual. Porém, você já está nele, e não estando você dormindo, o que lhe sucedeu foi só um transe, pelo qual você pôde presenciar todos os fatos de um modo mais tranquilo. Pois tenha certeza Cesar, poucos de nós suportamos lugares como aqueles em situações tão adversas.

— E o que aconteceu com Ícaro?

— O de sempre: ele reluta em aceitar a ajuda que lhe é ofertada.

— Senti que quando ele me olhou era como se ele quisesse me arrastar para aquele buraco. Mas também percebi algo de bom dentro dele.

Miguel respondeu:

— Ícaro não é um ser que se compraz no mal, Cesar. Ele somente acha que os responsáveis pelo mal que o acometeu lhe devem algo e que ele mesmo deve fazer esta cobrança. Por isso, Cesar, é que levamos você em estado de transe ao encontro de Ícaro.

— Não entendi — disse eu, curioso.

— Desejamos com isso — disse Madalena —, avaliar a reação de Ícaro ao vê-lo, pois desejamos provocar o encontro entre vocês dois. Isso claro, se assim você o desejar.

— Desejo sim, mas tenho receio do que poderá acontecer. Talvez isso possa afastá-lo ainda mais de vossos esforços.

Miguel aditou:

— Como você mesmo disse Cesar, havia algo de bom dentro de Ícaro, e quando uma semente é plantada, necessário se faz que ela seja regada para seu desenvolvimento. No momento em que você lhe ofereceu ajuda, mesmo inconscientemente, ele percebeu que você o ama, Cesar. E não há mágoa a que o amor não possa sobrepor.

Por aquela ocasião, chegavam o irmão Inácio e minha mãezinha.

— Como estou feliz em vê-los! — exclamei — Vocês irão nos acompanhar no socorro com o irmão Ícaro?

— Vejo que já decidiu por ir, Cesar — disse a minha mãe.

— Sem dúvida! Apesar de receoso, entendo que esta é uma boa oportunidade para me redimir com Ícaro.

— Que bom Cesar! — falou o irmão Inácio — Mas devo dizer que o lugar em que iremos encontrar Ícaro ultrapassa em desagrado o horroroso cenário em que você esteve há pouco, durante seu transe.

— Já fui alertado disso, irmão, e estou mesmo disposto a acompanhá-los nesta tarefa.

— Vamos? — apressei-me.

Inácio, no entanto, ponderou:

— Calma! Ainda temos que esperar nosso querido Hélio.

— Ele irá nos acompanhar? — indaguei.

— Sim. Esta experiência servirá para estreitar os laços entre Ícaro e ele, pois, tendo Ícaro que voltar ao plano físico em breve, deverá se sentir acolhido.

— Mas nesse caso Ícaro sentirá aversão àquele que será seu avô...! — Exclamei.

— Temos feito progresso, apesar de Ícaro não aceitar ajuda, porque como já foi dito, ele não é um Espírito que se compraz no mal, porém, se não aceita a ajuda que lhe é ofertada, ainda o faz pelo orgulho — Esclareceu-me minha mãezinha.

— Então, o que estamos esperando para buscar Hélio? — perguntei.

A resposta veio pelo irmão Inácio, com a calma e a paciência que lhe é peculiar:

— Esperamos o retorno dele ao sono, porquanto no momento que você despertou do seu transe, ele também se despertou. Logo ele voltará a repousar o corpo físico e então nos encontraremos.

— Mas nós já não devemos ir para lá, a fim de prepararmos o ambiente para ele? — repliquei.

— Alguns outros irmãos já estão fazendo isso e a qualquer momento Hélio estará em sono profundo. Aguardemos! — completou Inácio.

Nesse momento interpelou a Irmã Madalena:

— Sugiro que façamos nossa oração para nos prepararmos, e também para que nós enviemos bons pensamentos a Ícaro, a fim de quebrar seus resquícios de orgulho que lhe cega, assim como por Hélio, para que ele se sinta seguro e harmonizado o suficiente para ser trazido ao nosso encontro o mais breve possível.

Iniciada a prece eu podia sentir cada palavra com o íntimo do meu ser, palavras que eram proferidas por irmã Madalena e tiritavam em meu coração, trazendo-me aos olhos gotas de lágrimas, que nasciam no íntimo brilhando em minha face. Era como ouvir uma canção composta pelo próprio Criador, interpretada por Jesus.

Alegrei-me de fazer parte de todo aquele trabalho no qual pude presenciar a emissão de fluidos coloridos, como o mais belo jardim de flores, que emanava em uma direção, que eu desconhecia, mas tinha a certeza de que se endereçava a Ícaro e a Helio.

Concluída a prece, fomos agraciados com a chegada de Hélio que parecia já conhecer os trabalhos dos quais faria parte dentro em breve.

Hélio era frequentador assíduo de uma casa de oração espírita, e muitas vezes, ajudava nas tarefas do plano espiritual — quando não se entretinha nas voltas noturnas que costumava fazer.

— Bem, agora não temos mais por quem esperar — disse minha mãezinha. — Podemos ir. Ícaro nos espera. Estamos com uma segura impressão de que nosso irmão irá aceitar nossa ajuda, pois tenho certeza de que a experiência que teve há pouco com Cesar o balançou bastante. Devemos insistir com a mesma estratégia de abordagem.

— Está certa, irmã Clarisse! — corroborou irmão Inácio — Que Deus guie os nossos passos!

Desse modo seguimos ao encontro de Ícaro.
*
Fora dos portões do recanto espiritual, a escuridão parecia ser a única coisa existente. Tive a real impressão de que ali não faltava somente a luz, mas faltava a vida; tudo que podia sentir era frio constante e um sentimento de abandono indescritível.

Finalmente paramos de caminhar e neste ponto nosso irmão Inácio pediu que fizéssemos um circulo e juntássemos as mãos. Assim o fizemos.

Uma luz de poder arrebatador começou a emanar do alto. Quando percebi, estávamos todos volitando pelo menos três metros do solo. Finalmente quando a luz alcançou o chão, pude perceber que não havia piso sólido e sim um monte de corpos que rastejavam em torno de um fosso, do qual outros tantos corpos entravam e saiam num mar de dor, agonia e desespero.

Naquele instante, eu esquecia a falta de vida que momentos antes eu julgava existir.

Percebia que minha apática e total cegueira moral impedia de ver quantas vidas existiam naquele lugar, no mínimo asqueroso.

Aquele meu momento de autoanálise fora interrompido pela voz de Inácio:

— Cesar, ponha-se no solo! Estamos todos lhe enviando toda força de que precisa para a melhor condução de seu diálogo com o nosso querido irmão Ícaro.

Obedecendo às ordens de Inácio, eu passei vagarosamente sobre aquele monte de corpos, que me percebiam minha presença, porque continuavam rastejando de um lado para o outro.

Senti em diversos momentos os pensamentos deles que atravessavam meu perispírito, e, como se eu fosse uma nuvem de gás, absorvia todos os sentimentos que encobriam aqueles irmãos.

Afinal consegui chegar próximo de Ícaro, que diferente dos outros, não rastejava. Estava sentado sobre uma pedra, como que pensando profundamente em algo.

— Diga-me uma coisa — disse-me Ícaro, antes mesmo que eu lhe falasse algo.

— O que vocês fizeram quando souberam de minha morte?

Eu não sabia o que responder. Procurava o que falar quando o irmão Inácio posicionou-se nas costas de Ícaro, e — eu não sei como, pois eu ainda não era capaz de fazê-lo — o Irmão Inácio me ditou telepaticamente tudo o que eu deveria dizer a Ícaro.

— Nós lamentamos muito, meu irmão! Hoje você tem uma chance que muitos outros irmãos gostariam de ter. Neste momento, meu amado irmão, eu te peço perdão, se meu erro de outrora serviu de motivo para os seus assassinos te privassem de uma vida mais duradoura. Mas saiba Ícaro, esses irmãos que você julga terem lhe feito mal, na verdade, só te ajudaram a voltar mais rapidamente para o verdadeiro lar.

— Você, chama isso de lar?

— Não, meu irmão, não este...

Por algum impulso, uma tela se plasmou em nossa frente e por ela era possível ver a Colônia Recanto de Irmãos. Eu me sentia como um médium, pois nenhuma daquelas palavras provinha de meus pensamentos, mas sim do Irmão Inácio. E aquela tela plasmada, sem dúvida, era obra de algum outro amigo que estava na caravana de socorro.

— Eu não sinto raiva de você e nem do Alvinho — resmungava o irmão a ser socorrido. — Sinto raiva de Deus! Não consigo entender por que aquilo tinha que acontecer comigo...

— Você está buscando as respostas nos lugares e nas coisas erradas — disse minha mãe, juntando-se a nós.

— Clarisse...? — indiferente, exclamou Ícaro — Ou devo dizer "maninha"? O que você faz junto dele? Ele foi o culpado por minha morte!

— Pensei ter ouvido você dizer há pouco que não sentia raiva, nem de Álvaro e nem de Julio, não é mesmo Ícaro?

— Sim.

— Então, não há motivos para traçar esta linha divisória entre nós.

Ainda insensível Ícaro proferiu:

— Essa não é a primeira vez que você me diz isso.

— Vamos fazer um trato: — propôs a mulher — Venha conosco para a colônia e lá você será cuidado; tomará um bom banho, comerá alguma coisa, então depois conversaremos. Se mesmo depois disso você quiser voltar para cá, nós não vamos nos opor à sua escolha.

— Eu não sou uma pessoa ruim... Também não sou burro, e não vou descansar enquanto Alvinho não acertar sua dívida.

— Suponho que você não poderá fazer isso — Ela disse convicta.
Neste momento alguns outros Espíritos que eu não tinha avistado até aquele momento envolveram Ícaro. Ele gritava e xingava a todos, sem parar de falar em vingança.

Na verdade, nenhum irmão encostou as mãos em Ícaro, mas ele parecia desmaiar com a intensidade da luz que se fez ver naquele instante.

Desacordado, então, levamos o nosso querido irmão para o hospital de nossa colônia.
*
Passei aquela noite ali muito ao lado da cama de Ícaro, com muita esperança na espera que ele se desperte, abra seus olhos e veja o cuidado que lhe fora dispensado e assim, finalmente aceite ajuda.

— Suponho que Ícaro não despertará tão cedo, Cesar — disse meu amigo Miguel.

— Como assim? — surpreso, questionei.

—Temíamos por isso, César: Ícaro já estava se degradando e começando a se esquecer de que é um ser criado por Deus. Os poucos sentimentos humanos que ainda lhe restavam estavam se perdendo; o ódio, o rancor e a angústia que lhe tomavam estavam fazendo dele um monstro.

— Mas ele não é mau! — exclamei.

— Ninguém o é, César, mas nos tornamos maus por não sabermos andar no caminho do bem.

— E o que vai acontecer com ele?

Docemente, Miguel completou:

— Estamos indo à casa de Hélio. Se você quiser vir conosco, lá irá descobrir por você mesmo.

Eu havia passado a noite inteira acordado, e, estranhamente, não me sentia cansado. Por isso, decidi acompanhar Miguel à casa de Hélio.

— Posso fazer uma pergunta sobre o trabalho desta noite?

— Claro César. Ficarei feliz se puder responder.

— A minha mãe não se chamava Clarisse, porém o irmão Inácio se dirigiu a ela com esse nome, assim como Ícaro também o fez, chamando-a de irmã...

— Sim, e qual a dúvida?

— Por que a minha mãe não adotou a forma física e nome da última encarnação e sim de outra?

— O porquê eu não poderei te responder. Acho que só ela o poderá, mas algumas razões parecem bem claras.

— Como por exemplo?

— Você acha que Ícaro iria reconhecê-la se ela não se apresentasse como a personagem áurea?

— Por que não? Ele não me reconheceu com o meu físico atual?

— Seu caso é bem diferente, afinal, você tinha muitas coisas em comum com ele, e perispiritualmente, vocês se identificam muito, isso faz com que Ícaro, quando olha para você e para Hélio, não enxergue senão as personagens Álvaro e Júlio.

— Entendi.

— Helio está para despertar, vamos?

— Claro.
*
Chegamos à casa de Helio e ficamos alguns momentos aguardando-o do lado de fora do quarto. Helio demorou um pouco para sair.

Devo dizer que as paredes daquela casa não eram barreiras para Miguel e eu, mas, por uma questão de respeito às intimidades de Lia e Hélio, nós preferimos aguardar ali no corredor.

Durante o café, encontrava-se somente o casal, pois seu filho mais velho — Diogo — ainda não havia acordado.

Hélio comentou a experiência que teve durante a noite, falou de nosso socorro a Ícaro, evidentemente, sem saber com clareza de quem se tratava aquele Espírito.

Falou também de algo que não havia presenciado, quando relatou a sua esposa que havia encontrado com Diogo e sua namorada Rafaela, e que ambos estavam num hospital, quando receberam a informação de que ela estaria grávida, e foi nesse momento que indaguei Miguel.

— Eu não me recordo disso...?

— Isso aconteceu depois do socorro de Ícaro; na verdade, isso não foi algo que ocorreu verdadeiramente, e sim, um presságio que servirá para Hélio e sua esposa se prepararem para a chegada de um novo membro na família.

— E como se deu esse envolvimento? Quer dizer, como foi feito para Hélio sonhar com isso? — perscrutei com interesse.

— Enquanto estávamos no hospital junto a Ícaro, nossas irmãs Madalena e Clarisse cuidaram de acompanhar Hélio de volta ao seu corpo. Nesse ínterim, elas foram lhe implantando ideias que o fizeram plasmar toda a situação que ele acaba de relatar.

— Então, o que Hélio falou foi fruto de simples sugestionamento?

— Não minimize a coisa desta forma.

— Não é isso, não é esta a minha intenção...

— O sugestionamento é a forma que as irmãs usaram para implantar na mente de Hélio aquelas ideias, porém, quem plasmou tudo foi ele próprio. Claro que com a ajuda de outros amigos que já esperavam por isso.

Minhas dúvidas se multiplicaram e então expus:

— Então, quer dizer que as outras pessoas que ele encontrou em sonho não estavam lá verdadeiramente?

O irmão respondeu tranquilamente:

— Neste caso, propriamente dito, não. Mas há casos, e não raros, que todas as personagens estejam presentes, pois é mais fácil e prático para os Espíritos amigos conduzirem o encarnado até certo local do que plasmarem situações e às vezes até remodelarem seu perispírito, para que possam imitar esta ou aquela pessoa.

— Então a namorada de Diogo é quem receberá a alma de Ícaro em seu ventre? — propus minha dedução.

— Estamos trabalhando para isso.

— E algo pode mudar? — perguntei.

— Boa parte do planejamento de Ícaro já está concluída. Neste momento, enquanto dorme, ele está recebendo instruções e tomando conhecimento de tudo. Claro que não podemos precisar ainda quando a ligação da alma de Ícaro será efetivada, porquanto ainda dependemos de instruções de amigos superiores. Até lá César, muita coisa pode acontecer.

— Imprevistos?

— Sim, porém com grande utilidade para todos.


Capítulos:


Introdução

PRIMEIRA PARTE (Médium Wilton Oliver) Capítulo 1 - Visitas à casa do irmão Hélio

Cap. 2 - Encontro doce

Cap. 3 - O papel dos mentores

Cap. 4 - O resgate de Ícaro

Cap. 5 - Na câmara de miniaturização

Cap. 6 - Preparação para o porvir

Cap. 7 - A gestação

Cap. 8 - Oportunidade para recomeço

Cap. 9 - Confissões

Cap. 10 - Equipe socorrista

Cap. 11 - Depoimento de Hanzi

Cap. 12 - Nos campos da Colônia

Cap. 13 - Reminiscências

Cap. 14 - Influências nefastas

Cap. 15 - Exposição esclarecedora

SEGUNDA PARTE (Médium Rodrigo Felix da Cruz) - Cap. 1 - Notícia feliz

Cap. 2 - O retorno de Marisa

Cap. 3 - Estudos na Colônia

Cap. 4 - Estágio no Hospital Irmã Margarida

Cap. 5 - Reencontro com Ícaro

Cap. 6 - As dimensões do Além

Cap. 7 - Laboratório da Memória

Cap. 8 - Na equipe socorrista

Cap. 9 - Primeiras atividades socorristas

Cap. 10 - Visita a François Dupont

Cap. 11 - Importante projeto

Cap. 12 - Grupo de planejamento

Cap. 13 - Implantação do projeto

Cap. 14 - Trabalho em conjunto

Cap. 15 - Comprometimento, esperança e perdão

TERCEIRA PARTE (médiuns Alessandra Aparecida Silva e Rodrigo Felix da Cruz) Cap. 1 - Balanço

Cap. 2 - Novos trabalhos

Cap. 3 - Reunião na casa de Ricardo Felício

Cap. 4 - Laerte

Cap. 5 - Irmã Margarida

Cap. 6 - Irmã Maria Madalena

Cap; 7 - Irmã Lia

Cap; 8 - Inácio

Cap. 9 - Thales

Cap. 10 - Augusto

Cap. 11 - José de Matusalém

Cap. 12 - Estevão, guerreiro

Cap. 13 - Clara

Cap. 14 - O resgate de Rômulo

Cap. 15 - Mensagem de Laerte



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