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Índice de verbetes



Charlatanismo



Charlatanismo, ou charlatanice, é a prática de exploração da credulidade pública associada à venda, propaganda ou prenúncio de uma pretensa cura por vias fraudulentas, comumente descrito como exercício ilegal da medicina, curandeirismo. A exemplo do que ocorre em muitas nações, charlatanismo é tipificado no artigo 283 do Código Penal Brasileiro como crime contra a incolumidade pública. Na codificação espírita, Allan Kardec tratou dos charlatões como aqueles que simulam capacidades mediúnicas: os falsos médiuns, embusteiros, prestidigitadores, naturalmente inclinados ao interesse material.

Em O Livro dos Médiuns, Kardec analisa sistematicamente o charlatanismo em duas ocasiões específicas. Na primeira ocasião (capítulo IV da Primeira Parte: "Os sistemas"), ele analisa a tese da negação dos opositores do Espiritismo que atribuem todo e qualquer fenômeno espiritual ao sistema do charlatanismo:

"Entre os opositores do Espiritismo, muitos atribuem aqueles efeitos à falcatrua, pela razão de que alguns puderam ser imitados. Segundo tal suposição, todos os espíritas seriam indivíduos tapeados e todos os médiuns seriam enganadores, de nada valendo a posição, o caráter, o saber e a honradez das pessoas. Se isto merecesse resposta, diríamos que alguns fenômenos da Física também são imitados pelos ilusionistas, o que nada prova contra a verdadeira ciência. Ademais, há pessoas cujo caráter afasta toda suspeita de fraude e é preciso não saber absolutamente viver e carecer de toda civilidade para que alguém ouse vir dizer-lhe na face que são cúmplices de charlatanismo."
Allan Kardec, O Livro dos Médiuns - 1° Parte, cap. IV, item 38

A partir de então, Kardec vai considerar a possibilidade e até mesmo a naturalidade do oportunismo dos homens aproveitadores e trapaceiros para se passarem por médiuns e explorarem indevidamente a ideia espírita. E, como recurso preventivo contra esses exploradores, ele vai oferecer um critério elementar pelo qual comumente se pode distinguir os falsos dos autênticos médiuns: o interesse material.

"Num salão muito respeitável, um senhor que se dizia bem-educado, tendo-se permitido fazer uma reflexão dessa natureza, ouviu da dona da casa o seguinte: “Senhor, pois que não estais satisfeito, na saída será restituído pelo que pagou”. E com um gesto, lhe indicou o que de melhor tinha a fazer. Deveremos por isso afirmar que nunca houve abuso? Para crê-lo, seria preciso admitir que os homens são perfeitos. De tudo se abusa, até das coisas mais santas. Por que não abusariam do Espiritismo? Porém, o mau uso que se faça de uma coisa não autoriza que ela seja prejulgada desfavoravelmente. Para chegar-se à verificação, que se pode obter, da boa-fé com que as pessoas fazem, deve-se atender aos motivos que lhes determinam o procedimento. O charlatanismo não tem cabimento onde não há vantagem."
Allan Kardec, Idem

Mais adiante, na mesma obra, o codificador dedica um capítulo inteiro à questão (capítulo XXVIII da Segunda Parte: "Do charlatanismo e do embuste") e aí destaca o comportamento dos Espíritos em relação aos exploradores da espiritualidade:

"Quem compreendeu bem o que dissemos das condições necessárias para que uma pessoa sirva de intérprete dos bons Espíritos, das múltiplas causas que podem afastá-los, das circunstâncias que — independentemente da vontade deles — lhes sejam obstáculos à vinda, enfim de todas as condições morais capazes de exercer influências sobre a natureza das comunicações, como poderia supor que um Espírito — por menos elevado que fosse — estivesse, a todas as horas do dia, às ordens de um empresário de sessão e submisso às suas exigências, para satisfazer à curiosidade do primeiro que aparecesse? Sabemos que aversão infunde aos Espíritos tudo o que cheira a cobiça e a egoísmo, o pouco caso que fazem das coisas materiais; como, então, admitir que se prestem a ajudar quem queira traficar com a presença deles? Repugna pensar isso e seria preciso conhecer muito pouco a natureza do mundo espírita para acreditar que tal coisa seja possível. Mas, como os Espíritos levianos são menos escrupulosos e só procuram ocasião de se divertirem à nossa custa, ocorre que, quando não se seja mistificado por um falso médium, tem-se toda a probabilidade de ser enganado por alguns de tais Espíritos. Só estas reflexões mostram o grau de confiança que se deve dispensar às comunicações deste gênero. Ao demais, para que serviriam hoje médiuns pagos, desde que qualquer pessoa, se não possui mediunidade, pode tê-la em algum membro da sua família, entre seus amigos, ou no círculo de suas relações?"
Allan Kardec, Idem - 2° Parte, cap. XXVIII, item 305


Fraudes e escândalos

Em seu tempo, Allan Kardec alertou sobre e combateu veementemente a exploração do Espiritismo, salientando a categoria mais visada pelos aproveitadores: os fenômenos físicos.

"De todos os fenômenos espíritas, os que mais se prestam à fraude são os fenômenos físicos, por motivos que convém considerar. Primeiramente, porque impressionam mais a vista do que a inteligência, para a enganação, são os mais facilmente imitáveis. Em segundo lugar porque, despertando a curiosidade mais do que os outros, são mais apropriados a atrair as multidões; por isso, são os mais produtivos. Portanto, desse duplo ponto de vista, os charlatães têm todo interesse em simular as manifestações desta espécie; os espectadores, que na sua maioria estranhos à ciência, geralmente vão em busca muito mais de uma distração do que de instrução séria e é sabido que se paga melhor o que diverte do que o que instrui. Porém, posto isto de lado, há outro motivo mais real: se o ilusionismo pode imitar efeitos materiais — para que só precisa de destreza —, não lhe conhecemos até ao presente, o dom de improvisação, que exige uma dose pouco vulgar de inteligência, nem o fato de produzir esses belos e sublimes ditados, frequentemente tão cheios de propósitos, com que os Espíritos pintam suas comunicações."
Allan Kardec, Idem - item 315

Através da Revista Espírita, podemos constatar como eram frequentes os flagras de fraudes de exploradores da mediunidade e os escândalos provocados por tais espetáculos — muito utilizados pelos detratores do Espiritismo para desqualificar a doutrina dos Espíritos.

Pelo histórico reportado pelo codificador, essas fraudes partiam de típicos ilusionistas — que, não tendo aptidões mediúnicas, com os mais ardilosos artifícios, simulavam manifestações como materialização, levitação e movimentação de objetos — mas também se davam com pessoas que, embora tendo verdadeiramente faculdades mediúnicas para certos tipos de manifestações, almejavam produzir outras classes de fenômenos, na ilusão de se tornarem mais notados.

A historiografia registra casos emblemáticos de fraudes que foram bastante explorados para denegrir a essência da mediunidade e da Doutrina Espírita. O primeiro caso mais grave foi o depoimento de Kate Fox, uma das famosas irmãs Fox, pelo qual ela teria confessado a farsa no histórico caso de Hydesville — descrito como o marco do Espiritualismo Moderno, movimento precursor do Espiritismo. Pouco tempo depois ela mesma desmentiu essa confissão, mas o estrago já estava feito.

Também causou muitas polêmicas a famosa dupla formada por Ira Erastus e William Henry, conhecida como Irmãos Davenport. Pelo que se pôde apurar, eles eram realmente dotados de faculdades extrassensoriais, contudo, estiveram envolvidos em escândalos devido supostas descobertas de fraudes.

No tocante aos integrantes do movimento espírita propriamente dito, o episódio mais retumbante foi o conhecido Processo dos espíritas, envolvendo adulteração de fotografias publicadas na Revista Espírita (então editada por Pierre-Gäetan Leymarie), culminando num processo penal na corte de Paris em 16 de junho de 1875. O inquérito apontou crime de adulteração em algumas imagens fraudulentas cuja montagem propunha a aparição de Espíritos desencarnados. Na sentença, foram condenados tanto Leymarie, diretor da revista, quanto os fotógrafos envolvidos, Alfred Henri Firman e Édouard Buguet.


Espíritas exaltados

Além dos exploradores interessados na fama e em recursos materiais, também incluímos nesse rol de charlatões e embusteiros aqueles que, por melhor das intenções, simulam ou que validam falsos ou duvidosos fenômenos mediúnicos ou paranormais anímicos a fim de evidenciar os valores espirituais e até os conceitos espíritas — como se a espiritualidade ou o Espiritismo carecesse desses artifícios. Estes incorrem no erro clássico de supor que a consistência da Doutrina Espírita esteja na espetacularização dos fenômenos sobrenaturais e que as manifestações físicas sejam as melhores motivações para o convencimento e reforma íntima, enquanto que essa consistência reside na essência filosófica. Esses bem-intencionados, no entanto, assemelham-se mais à classe dos espíritas exaltados, na descrição kardequiana:

"A espécie humana seria perfeita se sempre tomasse o lado bom das coisas. O exagero é prejudicial em tudo. Em Espiritismo, inspira confiança bastante cega e frequentemente infantil em relação ao mundo invisível, e leva a aceitar-se com extrema facilidade e sem verificação aquilo cujo absurdo ou impossibilidade, a reflexão e o exame demonstrariam. Porém, o entusiasmo não reflete, deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais prejudicial do que útil à causa do Espiritismo. São os menos aptos para convencer a quem quer que seja, porque — e com razão — todos desconfiam dos julgamentos deles. Assim, por causa de sua crença fácil, são iludidos por Espíritos mistificadores, como por homens que procuram explorar a sua fé. Haveria apenas meio-mal se só eles tivessem que sofrer as consequências. O pior é que, sem o quererem, dão armas aos incrédulos, que antes buscam ocasião de zombar do que se convencerem e que não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Sem dúvida que isto não é justo, nem racional; mas, como se sabe, os adversários do Espiritismo só consideram de bom quilate a razão de que desfrutam, e conhecer a fundo aquilo sobre o que pensam é o que menos cuidado lhes dá."
Allan Kardec, Idem - 1° Parte, cap. III, item 28

Referências





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