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Índice de verbetes



Consolador



O Espiritismo por vezes é chamado de O Consolador Prometido, em alusão à promessa feita por Jesus, conforme os evangelhos bíblicos, de que o paráclito de Deus seria enviado à Humanidade, para reestabelecer a verdade, revelar coisas e permanecer definitivamente com os homens. Esse paráclito também é descrito como Espírito da Verdade, que a tradição cristã chama de Espírito Santo (a terceira pessoa da chamada Santíssima Trindade) e que, por assim dizer, consideramos como sendo a Revelação Espírita, ou, de maneira mais genérica, o próprio mecanismo da mediunidade, pela qual Deus e a espiritualidade integar com a Humanidade, com o propósito de instruir, consolar e encorajar.


O Paráclito na Bíblia

Paráclito (do grego paráklētos e do latim paracletus) equivale a advogado, guia, protetor, encorajador, consolador etc., usado na forma passiva, por exemplo, aquele que defende, aquele que intercede, aquele que consola, aquele que instrui etc. Assim, na Grécia Antiga, era chamado aquele que defendia o réu diante de um tribunal (advogado).

Algumas traduções bíblicas o citam na forma aportuguesada — paráclito ou paracleto — enquanto outras o traduzem por termos diversos, tais como Consolador, Conselheiro, Ajudador, Ajudante, Intercessor, Espírito Santo, Espírito de Deus etc.

Na Bíblia (as citações bíblicas aqui transcritas foram tiradas da versão católica online), o termo referente aparece (aqui destacados em maiúsculo) nas seguintes passagens, começando pelo Evangelho de João:

"Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro CONSOLADOR, para que fique convosco para sempre; O ESPÍRITO DE VERDADE, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.
Mas aquele CONSOLADOR, o ESPÍRITO SANTO, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.
Mas, quando vier o CONSOLADOR, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim.
Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o CONSOLADOR não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei.
Mas, quando vier aquele ESPÍRITO DE VERDADE, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar."
João, 14: 15-17,26 - 15:26 - 16:7,13-14

Nesse contexto, o paráclito é descrito como "outro" consolador (dentro do processo da revelação divina, é sucessor de Jesus, portanto, não ele próprio, até porque estava por vir em nome do Cristo) e como Espírito de verdade, invisível aos olhos do mundo (portanto, imaterial, considerando a forma material conhecida na Terra), que já habita e que permanecerá naqueles que estão habilitados para tal propósito. Logo, esse "espírito" (pensamento) não se trata de uma pessoa, mas de algo relacionado ao campo das ideias, revelação, conhecimento etc.

A promessa é que esse paráclito "viria ensinar todas as coisas" (uma tarefa realmente improvável de ser delegada a uma única pessoa), o que implica dizer que o Cristo não pôde revelar toda a verdade (considerando as limitações de seus contemporâneos) e "fazer lembrar" e "testificar" (comprovar) o que o Messias disse (porque seus ensinamentos seriam mal interpretados ou mesmo falseados). Note-se bem a ênfase de Jesus em separar a si mesmo daquele que ele anuncia ("Eu o enviarei", "Ele me glorificará", "Ele há de receber do que é meu" etc.).

Agora, na Primeira Epístola de João:

"Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o ESPÍRITO DA VERDADE e o espírito do erro."
1 João, 4:6

Temos aqui mais uma demonstração de que o termo espírito se aplica à concepção de pensamento, onde ESPÍRITO DA VERDADE equivale a uma ideia ou mensagem verdadeira.

Ainda que de maneira indireta, lemos menções no livro Atos dos Apóstolos que nos induzem a pensar que se referem ao paráclito. Quando a ressurreição do Cristo completava cinquenta dias (pentecostes), os seus discípulos estavam reunidos e, conforme a narração bíblica, aconteceu um fenômeno extraordinário: um som veio do céu repentinamente e encheu a casa onde eles estavam assentados. Depois, eles viram algo parecido com "línguas de fogo", que se repartiram e pousaram sobre os discípulos. Então:

"E todos foram cheios do ESPÍRITO SANTO, e começaram a falar noutras línguas, conforme o ESPÍRITO SANTO lhes concedia que falassem. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua."
Atos dos Apóstolos, 2:4 e 7

Grande multidão se formou e, tendo vindo pessoas de diversas regiões, que falavam outros idiomas, eles escutavam o discurso dos apóstolos cada qual em sua língua nativa. Apesar da clareza do fenômeno (xenoglossia), muitos chegaram a zombar e supor que os discípulos estavam embriagados, ao que Pedro (líder dos apóstolos) retrucou:

"Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel:E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu ESPÍRITO derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos sonharão sonhos; E também do meu ESPÍRITO derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão."
Atos dos Apóstolos, 2:15-18

De fato, no Antigo Testamento, essa profecia consta no livro de Joel (2:28-30).

A questão que se apresenta é interpretar o que é esse Espírito, ou Paráclito.


A interpretação judaica

De acordo com a Enciclopédia Judaica, o Judaísmo interpreta o Paráclito basicamente como sendo um advogado, alguém (homem ou anjo) que intercede por outrem — exatamente como a aplicação comum da palavra (advogado) na Grécia Antiga, como se lê no livro de Jó:

"Tenho desde já uma TESTEMUNHA no céu, um DEFENSOR na alturas. Minha oração subiu até Deus, meus olhos choram diante dele.
Se perto dele se encontrar um anjo, um intercessor entre mil, para ensinar-lhe o que deve fazer, ter piedade dele e dizer: Poupai-o de descer à sepultura, recebi o resgate de sua vida; sua carne retomará o vigor da mocidade, retornará aos dias de sua adolescência."
, 16;19-20 e 33:23-25

A tradição judaica também distingue o Paráclito (uma anjo ou uma pessoa) do Espírito Santo (algumas vezes traduzido como Santo Espírito), que é entendido como uma espécie de emanação do próprio Deus — não se tratando, portanto, nem de uma divisão da divindade e nem de outra criatura qualquer. O Velho Testamento traz três referências a esse Espírito Santo. uma no Salmo, 54:11 — "De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de vosso santo Espírito" — e duas vezes no livro do profeta Isaias, 63:10-11 — "Mas revoltaram-se, ofenderam seu santo espírito, desde então tornou-se inimigo deles, e lhes fez guerra. Então se lembraram dos dias de outrora, de Moisés, seu servo. Onde está aquele que tirou dos céus o pastor de seu rebanho? Onde está aquele que pôs nele seu santo espírito?".


O Espírito Santo da tradição cristã

O Cristianismo tradicional tem consagrado majoritariamente (embora haja muitas correntes doutrinárias controversas) a interpretação de que o Paráclito é o Espírito Santo (Deus-Espírito Santo), ou seja, a terceira pessoa da chamada Santíssima Trindade — sendo a primeira pessoa o Criador (Deus-Pai) e Jesus Cristo a segunda (Deus-Filho). Segundo certos teólogos cristãos, essa divisão da divindade estaria bem configurada pelo que o Messias disse na passagem:

"Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."
Mateus, 28:19

Embora a sua natureza seja um "mistério", o Espírito Santo recebeu alguns atributos. Não foi criado nem gerado. Esta pessoa divina personaliza o Amor íntimo e infinito de Deus sobre os homens, segundo a reflexão de Agostinho. Manifestou-se primeiramente no Batismo e na Transfiguração de Jesus e plenamente revelado no dia de Pentecostes. Habita nos corações dos fiéis e estabelece entre estes e Jesus uma comunhão íntima, tornando-os unidos num só Corpo. O Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, é considerado como o puro nexo de amor. Atribui-se a esta pessoa divina a santificação da Igreja e do mundo com os seus dons.

O "mistério da Santíssima Trindade" é um dogma católico, mas é rejeitado por várias denominações cristãs, que se declaram "unicistas", inspirados na declaração contida no Deuteronômio, 6:4 — "Escuta, ó Israel: Javé, nosso Deus, é um só Javé."


Interpretação espírita

O que a tradição cristã comumente ajunta das passagens bíblicas numa só concepção — o Espírito Santo — a Doutrina Espírita distingue em vários significados, conforme o exame particular de cada termo (Paráclito, Espírito da Verdade, Espírito Santo, Santo Espírito etc.). Ou seja, Deus, Jesus e o Paráclito são, digamos, individualidades distintas, conforme analisaremos a seguir.


O Espiritismo desmistifica o dogma da divisão de Deus

Para começar, a ideia de dividir Deus em três pessoas (Santíssima Trindade) é desmistificada pelo conceito básico espírita de que Deus é único, portanto, indivisível. Por conseguinte, o dogma da divindade de Jesus, em que o Cristo seria a encarnação de Deus, também não se sustenta pela lógica. Deus é o supremo criador de tudo e de todos; Jesus é um Espírito superior, um dos filhos de Deus, tal qual cada um de nós. A superioridade do Cristo em relação a nós provém do progresso evolutivo que ele conquistou, não por ter sido gerado de maneira especial e naturalmente superior.

A Igreja propôs que Jesus era Deus observando literal e isoladamente a passagem bíblica em João, 10:30 — "O Pai e eu somos um". Entretanto, a sequência desse mesmo capítulo indica bem que por esses termos Jesus exprimia que ele e Deus estavam unidos pelo mesmo propósito, que ambos representavam os mesmos pensamentos, sentimentos e ações:

"Eu e o Pai somos um. Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar. Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode ser anulada, «quele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus? Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele."
Jesus - João, 10:30-38

Em contrapartida, segundo outras tantas citações nos Evangelhos, o próprio Jesus evidencia a distinção entre ele e Deus — a quem chama de pai (ver no livro Obras Póstumas, Allan Kardec, cap. "Ensaio sobre a natureza do Cristo", e A Gênese, Allan Kardec, cap. XV "A superioridade da natureza de Jesus") —, numa delas, inclusive, deixa claro a separação entre ele e o que chamou de Espírito Santo:

"E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro."
Jesus - Mateus, 12:32

Portanto, um é o FILHO DO HOMEM(Jesus) e outro é o ESPÍRITO SANTO.

O dogma da Santíssima Trindade fica então desmistificado, tanto pela lógica quanto pelas palavras do Cristo, que, aliás, acrescentou que as individualidades — a dele e a de Deus — ficariam conservadas com o seu retorno ao plano espiritual:

"E, levantando-se o sumo sacerdote no Sinédrio, perguntou a Jesus, dizendo: Nada respondes? Que testificam estes contra ti? Mas ele calou-se, e nada respondeu. O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito? E Jesus disse-lhe: Eu o sou, E VEREIS O FILHO DO HOMEM ASSENTADO À DIREITA DO PODER DE DEUS, e vindo sobre as nuvens do céu."
Marcos, 14:60-63

Se fôssemos tomar ao pé da letra, igualmente poderíamos considerar a visão do discípulo Estêvão, que "estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, e viu a Glória de Deus, e Jesus, que estava à direita do Pai; E disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus." (Atos dos Apóstolos, 7:55-56). Inclusive, Jesus reconhece: "O Pai é maior do que eu" (João, 14:28)

O que o Espiritismo enfatiza é que, em sua jornada terrena, Jesus — o Messias, o enviado de Deus para proclamar a segunda revelação divina — manteve-se em sintonia com o Pai (e também com o Espírito da Verdade), formando assim uma unidade de propósito, como se fossem uma só pessoa, da mesma maneira pela qual uma unidade que se forma entre aqueles que preservam animados por um mesmo ideal, tal como o próprio Cristo predisse em João, 14:18-20 — "Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis. Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós."

"(...) considerando-o apenas um Espírito superior, não podemos deixar de reconhecê-lo – por suas virtudes – como um dos de ordem mais elevada e colocado muitíssimo acima da humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que Ele produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade confia somente a seus mensageiros diretos, para cumprimento de seus desígnios. Mesmo sem supor que ele fosse o próprio Deus, mas unicamente um enviado de Deus para transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um profeta, porque seria um Messias divino."
Allan Kardec, A Gênese - Cap. XV, item 2

O Espírito Santo e o Paráclito

Algumas vezes o Paráclito é também denominado Espírito Santo. Contudo, nem todas as menções bíblicas ao Espírito Santo dizem respeito especificadamente ao Paráclito.

Tal como na tradição do Judaísmo, o Espiritismo compreende o Espírito Santo como uma emanação de Deus, espécie de ação do Pai Celestial, uma graça da Providência (por exemplo, uma inspiração), ou mesmo o amor do Pai. Nesse sentido é que devemos entender as passagens dos Salmos e Isaias (já citadas aqui), da mesma maneira que, na codificação espírita, o Espírito Lacordaire o invoca ao escrever sobre o orgulho e a humildade em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VII, item 11 — "Aos pobres Espíritos que outrora habitaram a Terra, Deus conferiu a missão de esclarecê-los. Bendito seja Ele, pela graça que nos concede, de podermos auxiliar o seu aperfeiçoamento. Que o Espírito Santo me ilumine e ajude a tornar compreensível a minha palavra, concedendo-me o favor de pô-la ao alcance de todos!"

Em uma variação dessa bênção divina, o Espírito Santo se assemelha a uma energia vital, uma força magnética (tal qual os fluidos terapêuticos distribuídos na prática do passe), como encontramos na passagem seguinte:

"Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco. E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegraram, vendo o Senhor. Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo."
João, 20:19-22

Mais ou menos nessa conotação, também temos o exemplo da bênção divina predita por João Batista em Marcos, 1:8 — "Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo."


Espírito Santo e mediunidade

Doutras vezes, o Espírito Santo sugere ter um enfoque mediúnico — ou seja, ele seria a própria mediunidade, a interação entre a espiritualidade e os homens. Isto se evidencia pela sua correlação com fenômenos especiais (inspiração, clarividência, predição, cura etc.) — então chamados de milagres, atos sobrenaturais. Por exemplo, o fenômeno de xenoglossia no dia de pentecostes, como já citamos, ou como em Lucas, 1:67, onde lemos que Zacarias (pai de João Batista), "ficou cheio do Espirito Santo e profetizou". Em Lucas, 2:25-33, temos a história do ancião Simeão, justo e temente a Deus, a quem foi revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ter visto o Cristo — o que de fato ocorreu.

É pelas suas capacidades mediúnicas que o apóstolo Paulo alegar ser guiado pelo Espírito Santo, que o prediz das prisões e sofrimentos que o esperam, tal como se lê em Atos dos Apóstolos, 20:22-23. Esse mesmo Paulo, na sua carta aos Hebreus, 6:5-6, narra que aqueles que foram batizados em nome do Senhor Jesus, sobre os quais o apóstolo impôs as mãos, encheram-se do Espírito Santo e então falavam línguas e profetizavam.

Assim, "encher-se" do Espírito Santo, ou "estar com" ele, equivale a entrar em transe mediúnico e se deixar guiar por ele, quer dizer, pelos anjos, pelos guias espirituais, os Espíritos protetores etc. Bem assim está exposto em Lucas, 12:11-12 — " E, quando vos conduzirem às sinagogas, aos magistrados e potestades, não estejais solícitos de como ou do que haveis de responder, nem do que haveis de dizer. Porque na mesma hora vos ensinará o Espírito Santo o que vos convenha falar". Essa mesma fala de Jesus é transcrita em Marcos, 13:11, e em Mateus, 10:19-20, embora aqui, ao invés de "Espírito Santo", o termo usado é "Espírito do vosso Pai". Eis, portanto, uma predição do fenômeno mediúnico conhecido como psicofonia.

A propósito da diversidade de fenômenos mediúnicos, Paulo escreveu na sua 1ª carta aos Coríntios, capítulo 12, denominando "dons do Espírito Santo", em que fala do dom de curar (mediunidade de cura), de falar (psicofonia), de profetizar (mediunidade de profecia), de discernir os Espíritos (clarividência), de operar maravilhas (manifestações físicas), variedade de línguas (xenoglossia) etc.

Ver Tipos de mediunidade.


O Consolador Prometido

Não deixando de ser também uma emanação de Deus (Espírito Santo), e igualmente conservando o caráter mediúnico, o Consolador Prometido, a que se atribui à Doutrina Espírita, é aquele paráclito predito por Jesus, que viria ensinar todas as coisas, recobrar a mensagem do Cristo e dar testemunho da verdade — por isso, denominado às vezes de Espírito da verdade (Ver as passagens do Evangelho de João, já citadas nesse verbete).

Trata-se, portanto, de uma nova ordem da providência divina, uma nova série de fenômenos, consequente e complementar às revelações anteriores. É a Terceira Revelação (a primeira foi a revelação mosaica; a segunda foi a do Cristo), que viria para permanecer com a Humanidade a fim de promover sua evolução espiritual. A realização dessa prometida revelação, claro, se subordinaria também aos esforços dos Espíritos missionários e das almas terrenas, através da interação propiciada pela mediunidade.

O marco inicial desse processo revolucionário pode ser considerado o fenômeno das Mesas Girantes, do qual se originou o Moderno Espiritualismo. Quer dizer, a nova série de manifestações espirituais e suas consequências, observadas a partir de meados do século XIX. Nesse sentido, o paráclito é a soma geral de toda a mediunidade que se apresenta — dentro e fora do conceito espírita.


Espiritismo consolador

A Doutrina Espírita não detém o monopólio da mediunidade, nem tão pouco da revelação divina e menos ainda da Verdade; Deus se revela em todas as coisas e por variadas vias. No entanto, dentro desse processo da nova revelação, o Espiritismo se sobressai sobre todos os sistemas até então formulados, e se fundamenta num princípio de progresso, caminhando lado a lado com a ciência, ao ponto de ponderarmos que ele é insuperável, ou, que seja, que desemboca para onde tudo se converge, na unidade com Deus.

"Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança."
Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo- cap. VI, "O Cristo Consolador", item 4

A partir dos princípios revelados na Codificação Espírita, a Humanidade adentrou na ciência da natureza espiritual de maneira jamais cogitada pelos homens. Desde então, esse conhecimento explica a justeza do plano divino, a raiz dos males terrenos e as promessas de uma concreta felicidade. Tal a razão por bem se aplicar ao Espiritismo o título de "doutrina consoladora", uma vez que ela instrui, consola, reanima e potencializa as nossas capacidades espirituais.

"Disse o Cristo "Bem-aventurados os aflitos, pois serão consolados". Mas, como há de alguém sentir-se venturoso por sofrer, se não sabe por que sofre? O Espiritismo mostra a causa dos sofrimentos nas existências anteriores e na destinação da Terra, onde o homem expia o seu passado. Mostra o objetivo dos sofrimentos, apontando-os como crises necessárias que produzem a cura e como meio de purificação que garante a felicidade nas existências futuras. O homem compreende que mereceu sofrer e acha justo o sofrimento. Sabe que o sofrer lhe auxilia o adiantamento e o aceita sem murmurar, como o operário aceita o trabalho que lhe assegurará o salário. O Espiritismo lhe dá fé inabalável no futuro e a dúvida amargurante não se apossa mais da sua alma. Sendo permitido que o homem veja as coisas do alto, a importância das atribulações terrenas some-se no vasto e um esplêndido horizonte que ele o faz descortinar, e a perspectiva da felicidade que o espera lhe dá a paciência, a resignação e a coragem de ir até ao fim do caminho."
Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo- cap. VI, "O Cristo Consolador", item 4

Espírito da verdade e o Espírito Verdade

Como já está demonstrado, a expressão "Espírito da verdade" — em referência direta ao Paráclito (João, 14: 15-17 e 16:7,13-14) — é impessoal e imaterial; o termo "espírito" aqui pode ser sinônimo de pensamento, ideal, ânimo, e não como uma pessoa. Por analogia, diz-se que "Kardec tinha um autêntico espírito de cientista", ou seja, pensava e agia como um autêntico cientista. Em ênfase, dizemos que espírito de verdade equivale ao princípio do conhecimento verdadeiro, à verdade divina, ou simplesmente "A Verdade".

Por outro lado, a Codificação Espírita faz várias menções a uma entidade espiritual denominada Espírito Verdade, outras vezes Espírito da Verdade, Espírito de Verdade, A Verdade ou simplesmente Verdade. No entanto, não se trata da personificação daquele Espírito da verdade (que é impessoal, enfatizamos) — embora se faça um de seus representantes, bem como todos os Espíritos superiores sejam emissários da verdade, da mesma forma que um médico seja um representante da Medicina.

Em 25 de março de 1856, numa sessão realizada na residência da família Baudin, essa entidade invisível foi apresentado a Kardec como sendo o seu guia espiritual (Espírito familiar), quando deu-se um diálogo entre ambos, através da mediunidade da Sra. Baudin:

"Kardec — Meu Espírito familiar, quem quer que seja, agradeço-te por ter vindo me visitar. Consentirá em me dizer quem tu és?
Resposta — "Para ti, eu me chamarei A Verdade e todos os meses, aqui, durante um quarto de hora, estarei à tua disposição."
(…) K — O nome Verdade, por ti adotado, constitui uma alusão à verdade que eu procuro?
R — "Talvez; pelo menos, é um guia que te protegerá e ajudará."
K — Poderei te evocar em minha casa?
R — "Sim, para te assistir pelo pensamento; mas, para respostas escritas em tua casa, só daqui a muito tempo poderá obtê-las."
K — Poderia vir mais vezes e não apenas de mês em mês?
R — "Sim, mas não prometo senão uma vez mensalmente, até nova ordem. "
K — Terá animado na Terra algum personagem conhecido?
R — "Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer discrição; nada mais saberá a respeito.""
Obras Póstumas, Allan Kardec - cap. "Extratos, in extenso, do livro das previsões concernentes ao Espiritismo"


Ver Espírito Verdade.


Referências

  • O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - especialmente: cap. VI: "O Cristo Consolador" e cap. I: "Não vim destruir a lei" (ler online).
  • A Gênese, Allan Kardec - especialmente: cap. XV: "Superioridade da natureza de Jesus" (ler online).
  • Obras Póstumas, Allan Kardec - especialmente: "Estudo sobre a natureza do Cristo" e "Extratos, in extensus, do livro das previsões concernentes ao Espiritismo" (ler online).
  • Bíblia, versão católica online (www.bibliaonline.com.br/vc).




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