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Índice de verbetes



Espiritismo



Espiritismo, ou Doutrina Espírita — também denominado Kardecismo — é uma doutrina caracterizada como filosofia espiritualista, sob o princípio da racionalidade, codificada por Allan Kardec, que a definiu como "a ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo espiritual". Considera-se 18 de abril de 1857 o seu marco inaugural, com o lançamento de O Livro dos Espíritos, sua obra doutrinária fundamental. Também é chamado de Terceira Revelação e O Consolador Prometido. É ainda um desfecho das ideias do Mesmerismo, ou Magnetismo Animal — que Kardec denominou ciência irmã do Espiritismo —, do Espiritualismo Racional e do Espiritualismo Moderno. Desenvolvendo-se no tríplice aspecto científico, filosófico e religioso, a Doutrina Espírita tem como objetivo prático a promoção do aperfeiçoamento intelectual e moral da Humanidade, em cooperação com a espiritualidade, através da mediunidade. Seus praticantes são chamados de espíritas, ou espiritistas. A expressão "Fora da Caridade não há salvação" costuma ser usada pelo Movimento Espírita como uma espécie de lema ou slogan espírita.



Etimologia e aplicação

Espiritismo é a tradução do termo em francês spiritisme, em que se fez a fusão das palavras spirit (espírito) e isme (doutrina), resultando na definição literal "doutrina dos espíritos";. É, portanto, um neologismo, criado por Allan Kardec para designar a doutrina por ele codificada em acordo com as revelações espirituais.

"Para designar coisas novas são necessárias palavras novas. Assim exige a boa compreensão, para evitar a confusão que ocorre com as palavras que têm vários sentidos. Os termos: espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma definição bem definida, e acrescentar a eles nova significação, para aplicá-los à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar os casos de numerosas palavras com muitos significados. De fato, o Espiritualismo é o oposto do materialismo. Aquele que acredita haver em si alguma coisa além da matéria é espiritualista. Entretanto, isso não quer dizer que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, nós usamos, para indicar a crença nos seres espirituais, os termos espírita e Espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido da raiz da palavra e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente compreensíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a significação que lhe é própria."
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos - Introdução ao estudo da Doutrina Espírita, item I

Provavelmente por não supor que seu trabalho (a codificação espírita) viesse a alcançar tão séria e rapidamente as dimensões de uma doutrina tal qual ela se tornou, Kardec pensou os termos espiritismo e espírita como designações para tudo quanto dissesse respeito às manifestações espirituais modernas, a partir das mesas girantes, e àqueles que creem na existência dos Espíritos e em suas comunicações com o mundo visível (mediunidade). Desta maneira, de fato, o emprego do termo espiritismo generalizou-se prontamente e passou a ser usado em referência às várias doutrinas religiosas e filosóficas que surgiram desde o Espiritualismo Moderno, tanto que o próprio Kardec qualificava como fenômenos espíritas todas as manifestações mediúnicas, casuais ou regulares, espontâneas ou provocadas — desde que fossem autênticas — fossem ou não praticadas pelos seus seguidores ou nos moldes da doutrina que ele codificara.

Ver Espiritualismo Moderno.



Quando as ideias propostas por Kardec transcenderam o campo teórico e elas fundamentaram um movimento prático — bem caracterizado pela formalização da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas — constitui-se então uma doutrina bem caracterizada, com princípios próprios, distinguindo-se das demais correntes espiritualistas. Desde então, propôs-se que o título Espiritismo fosse exatamente — e exclusivamente — a denominação da doutrina kardecista, e que o qualitativo espírita designasse precisamente o adepto dos conceitos doutrinários de Kardec. Contudo, a rápida popularização dessas palavras fez com que elas substituíssem quase que completamente os termos espiritualismo e espiritualista, relativos ao movimento do Espiritualismo moderno.

Como essa polissemia permanece até os dias de hoje, por vezes se aplica a locução Espiritismo Kardecista ou o termo Kardecismo como qualificação para a Doutrina Espírita, quando para enfatizar a distinção entre o Espiritismo e as demais crenças e filosofias espiritualistas que se apropriam dos termos cunhados por Kardec. Porém, além de alguns apontarem a redundância da expressão espiritismo kardecista, há quem desaprove essa definição recorrendo à conceituação de que o Espiritismo é a doutrina dos Espíritos e que o uso dos termos kardecismo e kardecista suscita a ideia de que a Revelação Espírita fosse fruto pessoal de Allan Kardec.

Ver Kardecismo.

De forma categórica, compreendemos o Espiritismo como o conjunto dos fundamentos codificados por Allan Kardec e de todos os conceitos desenvolvidos em acordo com aqueles. Nesse contexto, as definições Doutrina Espírita, Kardecismo, Doutrina Kardecista são seus sinônimos. As demais concepções — ainda que sejam parcialmente concordantes com os fundamentos espíritas—classificam-se, portanto, como espiritualistas.

Compreendemos assim que as fontes elementares que deram origem a sua codificação básica foram os fenômenos espirituais, pelo que, as manifestações de efeitos físicos ensejaram a parte científica da doutrina e as comunicações inteligentes serviram de base para o corpo filosófico e religioso, obedecendo a uma programação da espiritualidade em vista de promover a evolução da Humanidade. Diante disso, faz sentido o título "Doutrina dos Espíritos". Mas, ao lado da contribuição dos seres espirituais (revelações), vemos a necessidade da participação efetiva dos espíritas, uma vez que a doutrina tem o caráter progressista e os seus conceitos não são ditados prontos, como os dogmas das religiões tradicionais. Nisso, reconhecemos o mérito de Kardec no monumental trabalho de codificar a base doutrinária espírita, assim como o de seus continuadores, com os quais todos os espíritas são convidados a colaborar.

Ver Codificação Espírita.


Desenvolvimento histórico

Consideramos a data 18 de abril de 1857 o marco inicial do Espiritismo, quando da publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em Paris, França, contendo a síntese dos conceitos fundamentais da nova doutrina, frutos de cerca de dois anos de intenso estudo e pesquisa do autor acerca das questões espirituais e, em especial, da observação das manifestações mediúnicas e da coleta de comunicações de Espíritos.

Em meados daquele século XIX, uma onda de manifestações espirituais espalhou-se pelo mundo. Começando pelo caso das irmãs Fox, nos Estados Unidos da América, estabeleceu-se ali um movimento conhecido como mesas girantes, em que se realizavam sessões para evocar fenômenos sobrenaturais. Logo essa moda chega a Europa e mobiliza todos os grandes centros urbanos. As reuniões em geral visavam o entretenimento com os movimentos ditos sobrenaturais, em que os móveis saltavam, dançavam e batiam com os pés, embora só isso já fosse evidência de uma força extra-humana, e inteligente, uma vez que respondia aos evocadores. Daí se concluiu a existência dos Espíritos e da força que eles tinham para atuar no nosso mundo físico. Entretanto, além dos efeitos físicos, descobriu-se a possibilidade de se obter mensagens inteligentes das entidades espirituais, para a qual foram criados métodos de comunicação, a começar pela tiptologia (associação das letras do alfabeto com um determinado número de batidas) até que se desenvolvesse vias mediúnicas mais práticas como psicofonia e a psicografia.

Esses desdobramentos resultaram no movimento que ficou conhecido como Espiritualismo Moderno, quando as questões da espiritualidade voltaram a ficar em voga e ser tema de estudo, depois da reação materialista dos grandes centros acadêmicos, que propunham a extinção de qualquer ideia espiritual.

Ver Espiritualismo Moderno.

Dentre os estudiosos que foram atraídos pelas mesas girantes figurava o pedagogo francês Hippolyte-Léon Denizard Rivail. Absolutamente cético em relação àqueles fenômenos, ele propôs a si mesmo desvendar o mistério que provocou uma verdadeira febre em toda a gente. Porém, tendo participado de várias sessões ao lado de pessoas estimadas, depois de averiguar todas as possibilidades de fraude ou ilusão, convenceu-se da veracidade das manifestações e da existência dos Espíritos. Desde então se dedicou completamente às pesquisas espíritas e mais adiante se inteirou da missão que lhe foi confiada, qual seja, a de sintetizar as novas revelações espirituais e publicá-las, codificando assim a base da nova doutrina, que ele denominou Espiritismo, quando publicou a sua obra básica — O Livro dos Espíritos — que ele assinou com o pseudônimo Allan Kardec.



A positiva repercussão do livro inaugural fez surgir, tanto na França como no exterior, um crescente interesse pela nova doutrina, motivando Kardec a prosseguir ainda mais com suas pesquisas. Tal demanda o inspirou a lançar em 1 de janeiro de 1858 a Revista Espírita, publicação mensal subintitulada "Jornal de Estudos Psicológicos". A extraordinária propagação do Espiritismo resultou na fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1 de abril de 1858, onde se realizavam estudos espíritas e experimentações mediúnicas visando o desenvolvimento da doutrina. A exemplo desta, outras instituições foram fundadas em várias partes do mundo, com as quais Kardec mantinha frequente intercâmbio.

Além de O Livro dos Espíritos e da Revista Espírita, Kardec deu prosseguimento à codificação do Espiritismo com novas publicações. Em 1859, ele escreveu O Que é o Espiritismo?, uma breve síntese da doutrina; em 1861, foi lançado O Livro dos Médiuns, o "Guia dos médiuns e evocadores"; em 1864 veio a público O Evangelho segundo o Espiritismo; em 1865 foi a vez de O Céu e o Inferno, de cujo subtítulo "A Justiça Divina segundo o Espiritismo"; em 1868, publicou A Gênese, ou "Milagres e as Predições segundo o Espiritismo". Após a desencarnação do codificador, uma coletânea de seus escritos pessoais e ensaios doutrinários inéditos foram copilados e publicados no livro Obras Póstumas, de 1890.

Ver Codificação Espírita.


Os fenômenos mediúnicos modernos

A partir do caso das Irmãs Fox, verificou-se em meados do século XIX uma verdadeira onda de fenômenos espirituais em todo o mundo, descrita como uma "invasão organizada de Espíritos" no livro História do Espiritualismo (Arthur Conan Doyle). As primeiras manifestações mais comuns foram de ordem física, como batidas em móveis e paredes, transporte de objetos e levitação de corpos. Acreditava-se que esses fenômenos fossem manifestações diabólicas ou de Espíritos zombeteiros — caracterizando esses eventos como os de poltergeist. Particularidades de lado, descobriu-se uma coletividade de Espíritos querendo fazer-se notados, testemunhando a sobrevivência da alma pós-morte e a solidariedade entre a espiritualidade e o mundo físico.



Logo mais foram desenvolvidos diversos meios de comunicação. No auge das mesas girantes, as entidades do além respondiam às perguntas dos evocadores através de um código, por exemplo, associando uma batida para "sim" e duas batidas para "não", ou associando cada letra do alfabeto com um determinado número de batidas. O sistema de pancadas (tiptologia) foi depois substituído pela prancheta de psicografia — uma variante do tabuleiro Ouija. Com o passar do tempo essas instrumentações foram sendo deixadas de lado e os médiuns passaram a produzir mensagens mais diretamente, como pela psicofonia e pela escrita (psicografia direta).



O mais notável tipo de manifestação e o que mais atraia a curiosidade geral era o de materialização de Espíritos ou de formas espirituais, pelo qual o médium libera uma substância (conhecida atualmente como ectoplasma) e esta molda a forma de corpos diversos.

Os fenômenos mediúnicos modernos começaram espontaneamente, revelando médiuns pessoas de todos os gêneros, sem distinção de raça, classe social, grau de instrução, idade, etc. Naturalmente a curiosidade popular levou as pessoas a se reunirem para evocar Espíritos em salões e até em areas públicas. Não tardou para que alguns médiuns passassem a explorar financeiramente suas capacidades mediúnicas apresentando-se em espetáculos nos teatros e casas de shows. Em consequência desse recurso material, surgiram os falsos médiuns, os charlatões e os ilusionistas, comprometendo a reputação dos verdadeiros médiuns e detratando a causa espiritual. Os médiuns mais notáveis daquela geração foram: Daniel Dunglas Home, Florence Cook, Elizabeth d'Esérance e Kate Fox (uma das irmãs Fox).



Repercussão

Desde o fim da Era Medieval, com o crescente progresso científico e a liberdade de expressão, as ideias materialistas estavam bastante em voga, o repúdio às instituições religiosas era flagrante e tudo quanto dissesse respeito às questões espirituais era rechaçado com veemência. O século XVIII, chamado de "O século das Luzes", também ficaria marcado como o século da incredulidade. No entanto, alguns movimentos de cunho científico e filosófico, baseados em certos eventos, vieram contrabalancear o curso das ideias e sedimentar a revolução espiritualista que viria logo adiante. Dentre esses movimentos, destacam-se:

  • Swedenborgianismo: uma igreja nova, fundada sob os princípios espirituais revelados através da mediunidade do polímata sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772).
  • Mesmerismo (ou Magnetismo Animal): terapia criada pelo médico alemão Franz Anto Mesmer (1734-1815) a base de um fluido magnético.
  • Os transes do clarividente norte-americano Andrew Jackson Davis (1826-1910), que tiveram grande repercussão e suscitaram interessantes debates sobre o dito sobrenatural.
  • Espiritualismo Racional: movimento filosófico desenvolvido nas primeiras décadas do século XIX entre acadêmicos franceses, dentre os quais Royer-Collard, Victor Cousin, Jouffroy e Paul Janet, que propunham um estudo racional acerca das questões espirituais.
  • Espiritualismo Moderno (ou Neoespiritualismo): série de intensas manifestações ditas sobrenaturais, em meados do século XIX, também conhecida como Fenômeno das Mesas Girantes, que acabou por despertar o interesse de Allan Kardec e, por conseguinte, na codificação do Espiritismo.

Todas as religiões tradicionais contestaram o Espiritismo e o Espiritualismo Moderno e por vezes, especialmente os católicos e protestantes, atentaram contra as ideias espíritas e a mediunidade em geral, por exemplo, sob o argumento de fraude, charlatanismo e satanismo. Um episódio histórico desse tipo de reação foi o Auto de Fé de Barcelona, quando cerca de três centenas de livros espíritas foram confiscados pela Inquisição católica e queimados em praça pública, em 9 de outubro de 1861 — evento esse que acabou por acirrar ainda mais o clamor popular contra o absolutismo da igreja e por despertar o seu interesse pela nova doutrina.



Os fenômenos mediúnicos modernos provocaram um alvoroço geral na comunidade científica que, a princípio, assistia à febre neoespiritualista com a preocupação de o misticismo embaraçar o progresso científico, através do apelo religiosista, e de a crença sobrepor a razão, como na Idade Média. Além disso, os frequentes flagrantes de embuste de pseudomédiuns afugentava o interesse de estudiosos sérios. Todavia, vários cientistas renomados se ocuparam em averiguar aqueles fenômenos e todos aqueles que melhor se aprofundaram nesse intento acabaram ratificando a veracidade das faculdades mediúnicas.

Dentre os grandes cientistas que diretamente estudaram os fenômenos no auge do Espiritualismo Moderno o mais proeminente foi o químico e físico inglês Sir William Crookes (1832-1919), célebre presidente da Royal Society (a sociedade real de ciências da Inglaterra) e da British Association for the Advacement of Science (Associação Britânica pelo Avanço da Ciência). Crookes submeteu vários médiuns a experiências diversas, sob as mais rigorosas condições de averiguação científica e, apresentando o seu relatório final à academia, em 1874, declarou publicamente estar convencido da existência de uma força espiritual e inteligente, à qual a ciência se via obrigada a estudar. A academia arquivou o relatório do eminente cientista, votando por não se envolver oficialmente com tais fenômenos.



Porém, o trabalho de Crookes inspirou outros ilustres homens da ciência que — quase sempre partindo da negação e do desejo de desmascarar os médiuns — igualmente validaram os fenômenos espirituais, dentre os quais, citamos: Oliver Lodge, Ernesto Bozzano, William James, Cesare Lombroso, Alexandre Aksakof, Alfred Russel Wallace e o Prêmio Nobel Charles Richet.

A partir dessa constatação, muitos pesquisadores procuraram desenvolver mecanismos que detectassem as forças ditas sobrenaturais. Das pesquisas de William Crookes, por exemplo, na tentativa de inventar um aparelho que medisse a capacidade mediúnica dos sensitivos, surgiram os raios catódicos, que mais tarde seriam usados nos tubos dos monitores de televisão e computadores. O fonógrafo de Thomas Edison seria outra invenção inspirada no desejo de registrar os fenômenos espirituais.

No século XX, o desenvolvimento das ideias espíritas na Europa foi bastante prejudicado pelas duas grandes guerras mundiais, que arrasaram o Velho Continente. Já nos Estados Unidos, as fortes tradições religiosas se opuseram à ideia reencarnacionista do Kardecismo, que não conseguiu fazer frente aos apelos convencionais daquela nação. Porém, além destas adversidades, o principal obstáculo para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, tanto na Europa quanto na América, seria o descrédito na prática mediúnica em função do surgimento de doutrinas e movimentos ocultistas, místicos e esotéricos, especialmente a partir do começo do século XX, criando um sincretismo tal a ponto de ofuscar a promissora filosofia espírita.


Desembarque espírita no Brasil

Em contrapartida ao declínio do Movimento Espírita europeu, a Doutrina dos Espíritas veio a encontrar solo fértil no Brasil, tendo seus princípios motivado movimentos de reformulação religiosa e social, com forte articulação dos seus adeptos nas campanhas de abolição da escravidão e da proclamação da República. Mais adiante, surgiriam grandes personalidades espíritas, inclusive médiuns, que contribuiriam para tornar o Brasil o maior país espírita do mundo na passagem do segundo para o terceiro milênio. Dentre esses eminentes nomes, destacamos: Teles de Menezes, Joaquim Carlos Travassos, Augusto Elias da Silva, Ewerton Quadros, Bezerra de Menezes, Anália Franco, Eurípedes Barsanulfo, Peixotinho, Yvonne Pereira, José Herculano Pires, Divaldo Franco e, em especial, Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier — considerado o mais extraordinário médium espírita de todos os tempos e, através de sua mediunidade, o maior contribuinte doutrinário do Espiritismo após Allan Kardec.



Tríplice aspecto do Espiritismo: ciência, filosofia e religião

A Doutrina Espírita nasceu da observação das manifestações espirituais modernas, nos moldes de uma ciência comum, que observa as causas e efeitos dos fenômenos materiais. Como a fonte daquelas manifestações se revelou uma força viva e inteligente (os Espíritos), e que vinha a expressar informações e ensinamentos, a pesquisa deixou de ser meramente de ordem física e adentrou no campo filosófico. Em razão de esses ensinamentos constituírem uma moral fundamentada em elementos religiosos, a nova doutrina também assumiu um aspecto religioso.

"O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que vêm dessas mesmas relações"
Allan Kardec, O Que é o Espiritismo - Preâmbulo
"O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que obrigatoriamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo sacerdote. Estes qualificativos são de pura invenção da crítica"
Allan Kardec, O Que é o Espiritismo - Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo

Dizemos que o Espiritismo é uma ciência em virtude de ser de seu escopo a investigação e o estudo acerca dos fenômenos espirituais, que afetam a nossa dimensão física, averiguando-os sob os princípios comuns dos métodos científicos tradicionais, contudo, transcendendo as fronteiras das ciências convencionais, que se limitam ao horizonte das leis materiais. Não se trata, portanto, de uma ciência constituída, pois não se subordina a qualquer autoridade acadêmica, mas acompanha o progresso científico em acordo com o desenvolvimento natural das luzes, para o qual também contribui desvendando os mistérios da Natureza.

O Espiritismo também escapa dos modelos filosóficos tradicionais, pois que eles se sujeitam a condicionamentos de âmbito da nossa dimensão física. Ao considerar o elemento espiritual como parte da Natureza, a Doutrina Espírita estabelece um novo conceito de filosofia, de um campo de ideias mais alargadas, em que princípios como sobrevivência da alma e reencarnação tornam-se instrumentos fundamentais para a compreensão e solução de todos os problemas humanos.

Os Espíritos colaboradores da codificação do Espiritismo deram testemunho de Deus — o Criador e Soberano do Universo — e das virtudes espirituais, especialmente a lei de amor; demonstraram claramente como nossos atos atuais implicam nas condições da vida futura, reconheceram a validade da oração, como canal íntimo de ligação de cada indivíduo com o ser divino e todas as forças positivas da espiritualidade. Em consequência disso, a Doutrina Espírita assumiu também o caráter religioso, uma vez que em seu código filosófico estão contidos certos efeitos religiosos, como a prece. Portanto, é a legítima religião — a ligação intima e direta de cada indivíduo com o divino e com o todo universal. Entretanto, não é uma religião constituída, nem se fundamenta em dogmas místicos, não têm rituais ou cultos sacramentais, nem hierarquia sacerdotal, nem adota fórmulas litúrgicas ou símbolos sagrados. A cepa espírita, que costuma ser utilizada como emblema da doutrina, é uma representação gráfica da obra divina, inspirada pela espiritualidade, no entanto, sem qualquer caráter místico.



Em suma, a Doutrina Espírita é uma ciência progressiva, que se alarga na medida em que a espiritualidade se revela e as capacidades humanas se qualificam para avançar na compreensão da Natureza, sempre em acordo com a lógica filosófica e à luz da razão. Entendemos que esse alargamento estão se dá não por exclusividade de uma só fonte reveladora e nem por intermédio de um só receptor, mas pela generalização dos fenômenos e pelo controle universal dos ensinamentos espirituais.


Princípios doutrinários espíritas

Da observação dos fenômenos espirituais, da síntese das revelações dos Espíritos (filosoficamente ponderadas) e da moral comparada, Allan Kardec sistematizou os conceitos básicos do Espiritismo, fundamentando então uma doutrina específica, bem caracterizada, pelo que, o seu qualificativo (espírita) se distingue da generalidade daquele do espiritualismo comum (espiritualista). No entanto, em se tratando de uma doutrina progressiva, seus conceitos não são dogmatizados e estão todos submetidos ao seu próprio desenvolvimento — sempre em acordo com a fé raciocinada.

Os principais conceitos desenvolvidos pela codificação kardecista são:

  • Existência, unicidade e soberania de Deus sobre tudo e sobre todas as coisas.
  • Preexistência e sobrevivência da alma encarnada (condição de Espírito imortal).
  • Conceituação do tríplice aspecto do homem: corpo físico, corpo espiritual (perispírito) e alma (Espírito encarnado).
  • Pluralidade dos mundos habitados (materiais e espirituais).
  • Lei de reencarnação, como ensejo de provas, expiações e missões para os Espíritos.
  • Progressão dos mundos e dos Espíritos, mediante os esforços de cada indivíduo.
  • Livre-arbítrio e lei de causa e efeito.
  • Solidariedade entre Espíritos e encarnados através da mediunidade.
  • Lei de caridade (prática incondicional do amor em todos os seus aspectos) sintetizada na moral cristã "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, fazendo aos outros aquilo que gostaríamos que os outros nos fizessem".

Ver Conceitos Básicos do Espiritismo.


Obras básicas e complementares

A codificação espírita parte das obras básicas de Allan Kardec:

  • O Livro dos Espíritos (1857): contém os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, além de uma breve introdução de sua origem e uma síntese do seu objetivo revolucionário: o progresso espiritual da Humanidade.
  • O Livro dos Médiuns, ou "Guia dos Médiuns e Evocadores" (1861): trata do caráter experimental da doutrina, tomando a mediunidade como instrumento de investigação e solidariedade entre a Humanidade e a espiritualidade.
  • O Evangelho segundo o Espiritismo (1864): desenvolve o aspecto moral e religioso da doutrina pela interpretação da essência cristã contida nos evangelhos bíblicos.
  • O Céu e o Inferno, ou "A Justiça Divina segundo o Espiritismo" (1865): compõe-se de reflexões filosóficas sobre a destinação do homem pós-morte comparando a sua fé raciocinada com teorias a respeito do céu, inferno, purgatório, limbo, anjos, demônios e justiça divina.
  • A Gênese, ou "Os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo" (1868): trata de questões cientificas, como a criação e a organização do Universo, os milagres e a natureza espiritual, bem como de questões filosóficas, como as predições acerca da renovação espiritual da Terra (transição planetária).

Kardec também publicou outros opúsculos, que são considerados obras complementares:

Após a desencarnação de Kardec, os dirigentes da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas publicaram o livro Obras Póstumas (1890), contendo ensaios inéditos do codificador sobre diversos assuntos, bem como suas anotações pessoais sobre suas primeiras experiências com os fenômenos espirituais modernos e o abraçamento da missão de codificar a nova doutrina. Tal publicação constitui então um importante documento histórico da origem e desenvolvimento do Espiritismo, a ponto de alguns pensadores a incluírem como uma das obras básicas da codificação.

Além de livros, Allan Kardec lançou a Revista Espírita, publicação mensal inaugurada em janeiro de 1859 e editada pelo codificador até a edição de março de 1869, mês de sua desencarnação. Sob o subtítulo "Jornal de Estudos Psicológicos", a Revista Espírita foi um importante veículo de desenvolvimento da doutrina, pelo que, também é catalogada por muitos pensadores espíritas como uma das obras básicas da codificação kardequiana.



Ver Obras Básicas do Espiritismo.

Além da bibliografia kardecista, o desenvolvimento do Espiritismo é enriquecido com obras de outros autores espíritas e, indiretamente, de publicações diversas. A História do Espiritualismo, de Arthur Conan Doyle — que não é exatamente uma obra espírita —, por exemplo, é considerada uma valiosa obra para a compreensão do contexto histórico da fenomenologia do século XIX, que ensejou a fundação do Espiritismo. Entre os autores e psicógrafos espíritas, destacam-se vários trabalhos de nomes como Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Herculano Pires, Yvonne Pereira, Divaldo Franco e, em especial, Chico Xavier. Especialmente falando da bibliografia de Chico Xavier, alguns títulos ditados pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz são apreciados como verdadeiras continuações da codificação espírita.


O Consolador Prometido e a Terceira Revelação

O Espiritismo é por vezes chamado de O Consolador Prometido, em alusão à promessa do Cristo, segundo o Novo Testamento, que Deus enviaria o seu paráclito para instruir e consolar a Humanidade, estabelecendo assim a Terceira Revelação das leis divinas.

"O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo, por meio de provas irrecusáveis. Ele nos mostra a espiritualidade, não mais como coisa sobrenatural, mas ao contrário, como uma das forças vivas e sempre atuantes da Natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, jogados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo menciona em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que ele disse permaneceu incompreendido ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil."
Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo- cap. I, item 5

Ver Consolador e Terceira Revelação.


Movimento Espírita

Denomina-se Movimento Espírita o exercício comum do Espiritismo e o conjunto de atividades em prol do desenvolvimento do Espiritismo, realizadas por aqueles que estudam, professam, praticam e divulgam essa doutrina. Para tais fins, os centros espíritas e entidades associativas (como a Federação Espírita Brasileira e o Conselho Espírita Internacional) se prestam a concentrar esforços no sentido de promover a conscientização doutrinária e a propagação dos princípios espíritas, visando o avanço espiritual da sociedade. Soma-se a essas organizações o desenvolvimento crescente da arte espírita (na música, no teatro, na TV e no cinema).

No campo da divulgação do Espiritismo a internet ocupa atualmente um lugar de destaque. A rede mundial de computadores tem contribuído significativamente para a democratização do conhecimento e para a aproximação e a interação entre os espíritas e os interessados na doutrina, sendo o Portal Luz Espírita um pioneiro nessa empreitada.



Espiritismo e atualidade

Indiretamente o Movimento Espírita se nutre do progresso natural das coisas, e mais notadamente do avanço mais recente das ciências e sua reabertura para questões relacionadas à espiritualidade. De fato, atualmente há renomados pesquisadores e conceituados centros de pesquisas científicas ao redor do mundo se debruçando sobre temas como sobrevivência da alma, reencarnação e múltiplas dimensões habitáveis, baseados em evidências concretas tais como: fenômenos mediúnicos, Experiência de Quase-Morte, reminiscências de vidas passadas e transcomunicação instrumental.


Referências






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